sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Che la materia provochi il contagio
se toccata nelle sue fibre ultime
recisa come il vitello dalla madre
come il maiale dal proprio cuore
stridendo nel vedere le sue membra strappate;

Che tale schianto generi
la stessa energia che divampa
quando la società si lacera, sacro velo del tempio
e la testa del re cade spiccata dal corpo dello stato
affinché il taumaturgo diventi la ferita;

Che l'abbraccio del focolare sia radiazione
rogo della natura che si disgrega
inerme davanti al sorriso degli astanti
per offrire un lievissimo aumento
della temperatura ambientale;

Che la forma di ogni produzione
implichi effrazione, scissione, un addio
e la storia sia l'atto del combùrere
e la Terra una tenera catasta di legname
messa a asciugare al sole,

è incredibile, no?

***

Que a matéria provoque o contágio
se tocada em suas últimas fibras
dividida como o bezerro da mãe
como o porco do seu próprio coração
esganiçando ao ver seus membros dilacerados;

Que tal aflição gere
a mesma energia que deflagra
quando a sociedade se despedaça, sacro véu do templo
e a cabeça do rei cai arrancada do corpo do estado
para que o taumaturgo se torne a ferida;

Que o abraço da lareira seja radiação
pira da natureza que se desagrega
inerme diante do sorriso dos presentes
para oferecer um levíssimo aumento
da temperatura ambiental;

Que a forma de toda produção
implique violação, cisão, um adeus
e a história seja o ato da combustão
e a Terra uma tenra pilha de madeira
posta a secar ao sol,

é incrível, não?


[Valerio Magrelli, trad. Patricia Peterle e Lucia Wataghin]

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

 a mulher
é algo de misterioso
que está entre o canto
e a metáfora"

[Alda Merini]

Amor Violeta

O amor me fere é debaixo do braço,
de um vão entre as costelas.
Atinge o meu coração é por esta via inclinada.
Eu ponho o amor no pilão com cinza
e grão de roxo e soco. Macero ele,
faço dele cataplasma
e ponho sobre a ferida.
 
[Adélia Prado]

 

Não lembro que idade tinha quando fiquei sabendo o que era Antes
Mas Antes se tornou para mim a extensão do mundo tateável
Com as mãos alcançava meus pais, a poeira na escada
podia remexer as raízes da terra e esmagar
nelas frutas que não dariam descendência
O mundo era algo em torno dos vasos da varanda
Ouvia o latido na rua o canto e outro segredo
Com o sol já não podia me queimar
Não por não poder tocá-lo, mas porque me era proibido
pular da sombra nas infinitas horas de pico
Então remoía as ondas dentro do castelo de areia
Esbravejava o mar por minha conta
cada balde um arrecife plástico
Piscinas naturais em poliméricos sintéticos

Cantava na praia ou na varanda
Até que o mar me trouxe Antes
E Antes era mais que eu em tudo

Antes estava lá quando meus pais se conheceram
Quando os bichos da Terra se tornaram
outros bichos e as plantas se cravaram em certas pedras
ao imprimir, com seus contornos na terra, xilogravuras do tempo

Eu não podia ter nascido até então
Era preciso esperar tudo acabar
A juventude das avós o nascimento dos primos mais velhos
Os casamentos os divórcios os namoros
escondidos os dias coletados
por todas as fotografias
os filmes franceses
o campeonato pernambucano
a construção do prédio
entre o mar e a janela

Mas o mar era ainda antes
nele o corpo diacrônico afundava
dava lugar à imersão das horas

Eu poderia cantar o mar, mas o mar era mais alto
Não havia nele a linha que me separasse
de Antes
Evidentemente, a mesma que separaria Antes
de mim
O mar era a vertigem
A navegação que alcançava todo o tempo
A ressaca renovada a cada instante

Quando enfim Antes soltasse a minha mão
acordava pelo grito deveria
retornar à sombra
na hora exata

[Clarissa Xavier, aqui]

Marulhada

 De tão líquida a mulher,
de tanto mar nos olhos,
a boca seca seca a alma.
O coração em ondas
escorre sobre a face.

[Francesca Cricelli]

A Divisão do Frango (Ossos, plasticina, 2017)

 Alguns ficaram com as minhas partes
piores. Isto é como a divisão do frango
em família numerosa. Faltam coxas para todos.
Isto é como a aprendizagem da generosidade:
o peito ou o pescoço ou as asas. Lá em casa,
fazíamos de conta que preferíamos outra coisa
e dávamos as partes melhores aos irmãos.
Não sei o que isso dirá de mim e dos meus irmãos.
Sei que eu e os meus irmãos tivemos sempre
uns dos outros as partes melhores.
Parece-me justo e valioso. Parece-me informação
digna de CV ou de Wikipédia. Isto devia dar empregos.
Isto devia ser o primeiro dado de uma biografia:
“dava a parte melhor do frango aos seus irmãos”.

E depois apaixonamo-nos. Complica-se a divsião do frango
quando há coxas para todos: para dois.
Difícil haver tanta coxa. Difícil não ser preciso dividir.
Difícil ver cada vez menos os irmãos, que provariam à mesa
sermos nós ainda a criança generosa. E que se houvesse
menos frango ou mais gente, ofereceríamos a parte melhor.

Alguns ficaram com minhas partes piores.
Os que não amei, não gostavam de me ver comer frango.
Comiam ossos e deram cabo de mim. Ainda me telefonam.
Os que amei iam comigo à churrasqueira, pediam molho picante
à parte (sempre tive medo de perder o ar) e batatas fritas na hora.
Um dia, nunca mais me quiseram ver.

Apenas pelos meus irmãos soube dividir-me.
Apenas eles ficaram para lá da refeição.

Não quero com isto justificar-me. Entendo.
Parti bem o frango mas parti sempre mal.

Só que às vezes lamento ninguém ter esperado
que eu crescesse. É natural.
Em tempo de aviários, ninguém espera isso de um frango.

[Filipa Leal]

Mulher de Perfil com Máscara na Mão Direita

 Mulher a inventar o corpo, a boca
cheia de vestígios de pântano, de heras,
de lodo, de incomunicabilidade.
Mulher segurando a máscara,
preparando-se para o esconderijo,
para a fácil loucura de já não ser real.
Mulher de perfil, tão pendurada, tão sem olhos
frontais, provocando-se a própria obra que a inclui,
desmotivando-se de tudo o que não for matéria,
soltando-se de todos os que a vêem bem.
Mulher enchendo-se de bronze,
tapando-se com a escultura que ela faráde si mesma.

[Filipa Leal]

Vem à Quinta-Feira

 Vem à quinta-feira.

É quase fim-de-semana e podemos, talvez, beber uma cerveja
ao cair da tarde, enquanto planeamos a viagem a Paris. E se Paris
for muito caro - sei que isto não está fácil - podemos ir a
         Guimarães
assim a um concerto, que ouvir é a maneira mais pura de calar.

Vem à quinta-feira.

A seguir, temos ainda a sexta e talvez me esperes à porta do
          emprego,
e talvez fiques para sábado e domingo, e talvez o mundo pare
de acabar tão depressa.

Vem à quinta-feira.
Mas não venhas nesta, vem na próxima.
Nesta, tenho um compromisso que não posso adiar, é um
          compromisso
profissional - sabes que isto não está fácil - e talvez nos dê
       hipótese de irmos
a Paris ou a Guimarães. Vem na próxima, que eu preciso de
          tempo
para arranjar o cabelo, para arranjar o coração,
para elaborar a lista do que me falta fazer contigo.

Vem à quinta-feira e não te demores.
Enquanto te escrevo, já fui elaborando a lista
(sabes como gosto de pensar em tudo
ao mesmo tempo)
e afinal o que me falta fazer contigo
não é caro:
- viajar de autocaravana,
- dançar na Estrada Nacional,
- ver-te chorar.
Choras tão pouco. Ainda bem que estás contente.

Vem à quinta-feira.

Se não puder ir a Paris ou a Guimarães, não te preocupes.
Vem na mesma, que eu vou apanhando as canas-da-índia, as
         fiteiras,
eu vou recolhendo a plha e reunindo cordas e lona.
Já estive a aprender no Youtube como se faz uma cabana.
Vem na mesma, que eu vou procurando um lugar seguro.
Vem na mesma porque a cabana, como a casa, só funciona
          com amor
- ou, pelo menos, é o que diz o Youtube.

Temos ainda tanto para fazer.
Por isso, se algum dia voltares, meu amor, volta numa quinta.

[Filipa Leal]

A Recusa do Amor

Não temos uma arma apontada à cabeça,
dizias-me. Mas era impossível que não visses,
impossível. Eu ao teu lado com aquela dor
no pescoço, imóvel, cuidadosa, o cano frio
na minha testa, a vida a estoirar-me
a qualquer momento. Era impossível que não visses
o revólver que levava sempre comigo. Por isso dormia
virada para o outro lado, não era por me dar mais jeito
aquele lado, era por me dar mais jeito
não morrer quando nos víamos,
era para dormir contigo só mais esta vez,
sempre só mais esta vez,
sempre com o meu amor a virar-se de costas,
sempre com o teu amor apontado à cabeça.

[Filipa Leal]

Manual de Despedida para Mulheres Sensíveis

Ser digna na partida, na despedida, dizer adeus com jeito,
não chorar para não enfraquecer o emigrante,
mesmo que o emigrante seja o nosso irmão mais novo,
dobrar-lhe as camisas, limpar-lhe as sapatilhas
com um pano húmido, ajudá-lo a pesar a mala
que não pode levar mais de vinte quilos
(quanto pesará o coração dele? e o meu?),
três pares de sapatos, um jogo de lençóis, o corta-vento, oferecer-lhe a medalha que a Mãe usava sempre que partia
e que talvez não tenha usado quando partiu para sempre,
ter passado o dia à procura da medalha pela casa toda
(ninguém sai mais daqui sem a medalha, ninguém sai mais daqui),
pensar que a data escolhida para partir é a da morte da Mãe,
pensar que a Mãe não está comigo para lhe dobrar as camisas
e mesmo assim não chorar, nunca chorar,
mesmo que o Pai esteja a chorar, mesmo que estejam todos a chorar,
tomar umas merdas, se for preciso: uns calmantes, uns relaxantes,
uns antioxidantes para não chorar; andar a pé para não chorar,
apanhar sol para não chorar, jantar fora para não chorar, conhecer gente,
mas gente animada, pintar o cabelo e esconder as brancas,
que os grisalhos são mais chorões, dizer graças para não pôr também
os amigos a chorar, os amigos gostam é de nós a rir, ver séries cómicas
até cair, acordar mais cedo para lhe fazer torradas antes da viagem,
com manteiga, com doce de mirtilo, com tudo o que houver no frigorífico,
e não pensar que nunca mais seremos pequenos outra vez,
cheios de Mãe e de Pai no quarto ao lado,
cheios de emprego no quarto ao lado quando ainda existia Portugal.

É tanto o que se pede a um ser humano do século vinte e um.
Que morra de medo e de saudade no aeroporto Francisco Sá Carneiro.
Mas que não chore.

[Filipa Leal]

Sto rifacendo la punta al pensiero,
come se il filo fosse logoro
e il segno divenuto opaco.
Gli occhi si consumano come matite
e la sera disegnano sul cervello
figure appena sgrossate e confuse.
Le immagini oscillano e il tratto si fa incerto,
gli oggetti si nascondono:
è come se parlassero per enigmi continui
ed ogni sguardo obbligasse
la mente a tradurre.
La miopia si fa quindi poesia,
dovendosi avvicinare al mondo
per separarlo dalla luce.
Anche il tempo subisce questo rallentamento:
i gesti si perdono, i saluti non vengono colti.
L’unica cosa che si profila nitida
è la prodigiosa difficoltà della visione.

[Valerio Magrelli]

 Tutto il mondo è vedovo se è vero che tu cammini ancora
tutto il mondo è vedovo se è vero! Tutto il mondo
è vero se è vero che tu cammini ancora, tutto il
mondo è vedovo se tu non muori! Tutto il mondo
è mio se è vero che tu non sei vivo ma solo
una lanterna per i miei occhi obliqui. Cieca rimasi
dalla tua nascita e l´importanza del nuovo giorno
non è che notte per la tua distanza. Cieca sono
ché tu cammini ancora! cieca sono che tu cammini
e il mondo è vedovo e il mondo è cieco se tu cammini
ancora aggrappato ai miei occhi celestiali.

[Amelia Rosselli]

Se impazzisco non fatemi del male.
Se sono stata una sentimentale,
sempre cascata nello stesso errore,
non fatemi del male, per favore.
Visto che… dato… dato… non so cosa,
ecco, ci siamo, divento nervosa;
è che li sento e che mi manca il fiato.
Dato che alla fine, tutto sommato,
io ho tentato. Ho voluto tentare.
E se ho sbagliato cosa posso fare?
sbagliare ancora e ancora e cosí via.
E cosí sia. In qualche modo sia,
per idiozia, per malattia e disgusti.
Non ci siamo capiti, siamo giusti,
siamo rimasti sempre degli estranei.
Compatrioti, miei contemporanei,
compagni senza occhi e senza orecchi,
secchi e secchi di sangue e sangue a secchi
dai vostri piccoli luridi cuori!
Venite sí o no a scavarmi fuori?
Muovetevi e portatemi con voi.
E dove poi? Li sento gli avvoltoi
che vanno e vengono lassú. Li sento
in certi momenti, in questo momento,
tutti i giorni lassú, da giorni e giorni.
Ne vengono persino dai dintorni,
a darsi il cambio, vengono, poi vanno.
Mangiano, scopano… Quanti saranno?
topi di giorno, tutto di nascosto…
Ma quanti saranno? Avanti, c’è posto!
Avanti! Forza, avanti, delinquenti,
e senza storie, foto, incartamenti…
Morti prima dell’alba? senti senti…

[Patrizia Valduga]

Às vezes entristece-me esta cama cheia de espaço
isto de não servir a ninguém
penso: mas que medida tenho eu
que nunca sou roupa para os outros

Diria que não é culpa minha
sei que faço a vida como as outras pessoas
perdida no horizonte de um entardecer canalha
vindo para casa sorrindo aos vizinhos
com um saco de fruta na mão

Penso: todos vêem que fui às compras,
que tenho o ar leve de quem parou no café espalhando perfume
dizendo o que está certo sobre este dia
sendo a mulher exacta do que é ser mulher
servindo o balcão a todo o comprimento
(e tudo pode mudar depois de uma bica)

Como é bom saber que por aqui todos estão vivos
ignorando a minha dificuldade em escolher maçãs

Entrego-me ao destino,
há muito que não conto contigo
E olho a fruta que não como, pernas nuas e mão no sexo


[Cláudia R. Sampaio]

 A loucura é o mais credível oráculo.
Acredito nas visões que aparecem sem
origem, na agressão clara dos sentidos,
transformando-os, tirando-os do lugar.
A loucura anuncia e rói, iluminando à
volta das flores.

Não tenho chão e vou longe quando
ando sobre lâminas,
inundando-me no rebentamento das
cabeças.

Por cima de mim há milhões de vozes,
há milhões de vozes por cima da minha
cabeça.
Embaixo estão os astros e as espingardas
e eu sentada em planície ao mesmo
tempo que tenho nojo.

Tenho o espaço cheio de artérias e
um êxtase que pula na boca.
Trago a cara cheia de rostos.
Na escuridão sinto a pele como se
fosse minha, há aqui saudade como
uma corrente de ar
há aqui vida como um animal deitando-se
sobre o amor em espinhos.

Amar o que imaginamos é absolutamente
devastador.
Como eu, ruminando futuro,
rondando falésias.

A solidão balança como os cegos,
embriagando-me de orifícios.
A solidão é a tua luz centrípeta
no acaso da vida,
é a casca no exterior do mundo,
o fim da raiva, sou eu louca iluminando
à volta das flores, sentada em planície.
Tendo nojo.

Há beleza nesta falta de tudo e nestes
três cabelos mortos.
Eu sou o alimento completo
e intenvo-me em fabulosa neblina
à procura de gente.
Espanto-me e surjo.

[Cláudia R. Sampaio]

também eu já pari novos planetas
tenho-os escondidos no ventre que ninguém vê,
nem eu
mas quando mergulho no mar
deixo sempre os olhos abertos e por vezes
vejo aforrecas cintilantes
que me mostram a língua,
libidinosas

só a mim é que a libido vem em alforreca
e o prazer é um choco que
me enche de tinta quando espasma

a gata à janela ri-se mais uma vez,
mas eu não
anda cara de cuspir em tudo, a minha
deixem-na estar
a minha cara é que sabe
a cara é à parte do corpo
a cara tem um manifesto em que
explica as expressões a usar
em cada ocasião
a cara às vezes comunica com
o resto do corpo e por exemplo, hoje
comunica com o meu pé que
está verde e roxo e chora pelas
sapatilhas de ballet

nunca fui uma grande bailarina
e nem sei o que alguma vez fui
agora sou apenas este corpo
sentado numa manta zebra
e com um cheiro a laranja que
não me sai dos dedos

tu também não me sais dos dedos
agarras-te à laranja e formas um pomar

um pomar feito de ti, quem diria
pensava que só servias para me lembrares
da pequenez das minhas palavras

um pomar. TU.

deleitemo-nos então em volta dos vários
pomares de TUS que por aí existem

e eu que nem uma laranja sou,
se fosse algo, seria apenas um figo seco
em embalagem fora de prazo,
a contemplar o verde cheio de planetas
e a sonhar com o dia de aterragem
mas os figos não aterram
deixam-se estar a ser figos eternamente
vivem a secar

VIVAM OS FIGOS SECOS
VIVA EU SENTADA NA MANTA DA ZEBRA

e cheiro os dedos mais uma vez
cinco pomares estrelados
édens feitos de TUS, feitos de eus,
feitos de nós,
feitos de zeros mais zeros mais zeros
infinitos zeros que arrancam as sílabas
que me arrancam as horas a que tinha de
fechar a janela por causa de um espasmo
solar
as horas a que tinha de fechar os livros
vão continuar abertos, sempre as
mesmas páginas amareladas com cheiro a vida
porque a vida é nos livros

cá fora há nada elevado ao extremo
apesar de não sabermos, mas desconfiamos

a ânsia expande-se de boca em boca
disfarçada de rotina
e eu cuspo em todos os que se dizem felizes
cuspo em TODOS ao infinito
infinitamente elevado ao cubo,
ao quadrado, ao infinito
não tenho vergonha!
a minha cara de hoje é snob

VIVAM OS SNOBS!

Tus, tus, tus, e já somos tambores.
Rufemo-nos então em
melodias compassadas

trrru tu tu
trrru tu tu
trrru tu tu

aí vem o rebanho disfarçado de gente
aí vem o mundo em todo o seu esplendor
clamoroso, ardente de sugar tus, tus, tus
de nos mandar para o Espaço
nós, nós, nós
de onde viemos todos

e tu, meu pomar meu tambor
meu figo único que nunca seca
vieste lamber-me os dedos
vieste premir o gatilho
e entre nós, para sempre,
a diferença

[Cláudia R. Sampaio]

“sonhava-se com árvores e com amores epífitos
desaguava-se em sombras de amianto
inventava rios, trombas, sexo
viagens de gôndola no cabelo da
vizinha da frente
que não reparava que eu
falava com as plantas dela
porque não tinha mais companhia
as plantas dela, eu
e os mosquitinhos a sugarmos a seiva
montados nas gôndolas
que cheiravam à cozinha dela
à velhice dela

andava-se com a vida ao pescoço
de tão contentes
inchava-se urticária
ninguem trazia guilhotinas, só fé
ninguém pensava que ser triste era triste
ninguém pensava que viver era estar vivo
a minha avó via-me caídeira de ribanceiras,
sobrevivente a dois pneus de bicicleta
atropelada de ideias,
veneradora de avó e árvores

andava-se com qualquer um às costas
andava-se de trombas e não fazia mal
andava-se na berlinda e no ballet
quando fazia a espargata e
punha o pé junto ao pescoço
tudo parecia menos ridículo
andava-se na rua a sorrir pliés
corria-se à volta de um arbusto
desfaziamo-nos em sissones
e vomitava-se a vida depois do almoço

vomitava-se e era bom

saía-se da cama a gritar “Aleluia”
o corpo em ingestões atmosféricas de amores
os calcanhares no focinho,
a cabeça vendada
saía-se da cama a gritar “dói-me os cornos”
mas nada disso fazia mal
porque se os cornos doem, um dia param de doer
assim como as costas, a alma
e as inevitáveis injúrias

e sugava a seiva do cimento do
prédio dos Olivais, só de tijolo
sem pintura
sem porta
sem campainhas
decapitado

decapitavam-se as coisas e não fazia mal
as coisas decapitadas vivem por elas próprias
não têm cornos que lhe doam
metia-se os cornos e não fazia mal
porque tudo era decapitado

saía-se da cama com uma perna a menos
ou um braço
ou um pai a menos
e mais vale um pai num prédio só de tijolo
do que dois a voar

mas os meus pais voaram todos.

 

[Cláudia R. Sampaio]

 How should I not be glad to contemplate
the clouds clearing beyond the dormer window
and a high tide reflected on the ceiling?
There will be dying, the will be dying,
but there is no need to go into that.
The poems flow from the hand unbidden
and the hidden source is the watchful heart.
The sun rises in spite of everything
and the far cities are beautiful and bright.
I lie here in a riot of sunlight
watching the day break and the cloud flying.
Everything is going to be all right.

[Derek Mahon, here]

Dedication

 The mountains bend before this grief,
the great river does not flow,
but the prison locks are strong
and behind them the convicts’ holes
and a deathly sadness.
For someone the fresh wind blows,
for someone the sunset basks…
We don’t know, we are the same everywhere;
we only hear the repellent clank of keys,
the heavy steps of the soldiers.
We rose as though to early mass,
and went through the savage capital,
and we used to meet there, more lifeless than the dead,
the sun lower, the Neva mistier,
but in the distance hope still sings.
Condemned… Immediately the tears start,
one woman, already isolated from everyone else,
as though her life had been wrenched from her heart,
as though she had been smashed flat on ther back
still, she walks on… staggers… alone…
Where now are the chance friends
of my two hellish years?
What do they see in the Siberian blizzard,
what comes to them in the moon’s circle?
I sen them my farewell greeting.

[Anna Akhmatova, 1940, trad. Richard McKane]

 Memories have three epochs.
And the first is like yesterday.
The soul is under their blessed vault,
and the body is in the bliss of their shadow.
Laughter has not died down and the tears stream,
the ink stain is unwiped on the table,
the kiss is imprinted on the heart,
unique, parting, unforgettable…
But this does not last for long…
The firmament is no longer overhead, and somewhere
in a dull suburb there is a lonely house,
where it’s cold in winter and hot in summer,
where a spider lives and dust lies on everything,
where passionate letters burn to ash,
portraits change stealthily,
and people come to it as though to a grave,
and wash their hands when they get home,
and shake off a quick tear
from their tired lids, and sigh heavily…
But the clock ticks, one spring
replaces another, the sky turns pink,
names of towns change,
and eye-witnesses of events die,
and there is no one to cry with, no one to reminisce with.
Those shadows pass from us slowly
which we no longer call upon,
whose return would be terrible to us.
And once awake, we see that we have forgotten
the very road that led to the lonely house,
and choking with shame and anger,
we run to it, but (as in a dream)
everything is different there: people, things, walls,
and nobody knows us; we are strangers.
We got to the wrong place… Oh God!
Now comes the most bitter moment:
we realize that we could not contain
this past in the frontiers of our life,
and it is almost as alien to us
as to our neighbour in the flat,
and that we would not recognize those who have died,
and those whom God parted from us
got on splendidly without us –
even better…

[Anna Akhmatova, 1953, trad. Richard McKane]

Dedication for a plot of ground

This plot of ground
facing the waters of this inlet
is dedicated to the living presence of
Emily Dickinson Wellcome
who was born in England; married;
lost her husband and with
her five year old son
sailed for New York in a two-master;
was driven to the Azores;
ran adrift on Fire Island shoal,
met her second husband
in a Brooklyn boarding house,
went with him to Puerto Rico
bore three more children, lost
her second husband, lived hard
for eight years in St. Thomas,
Puerto Rico, San Domingo, followed
the oldest son to New York,
lost her daughter, lost her “baby,”
seized the two boys of
the oldest son by the second marriage
mothered them—they being
motherless—fought for them
against the other grandmother
and the aunts, brought them here
summer after summer, defended
herself here against thieves,
storms, sun, fire,
against flies, against girls
that came smelling about, against
drought, against weeds, storm-tides,
neighbors, weasels that stole her chickens,
against the weakness of her own hands,
against the growing strength of
the boys, against wind, against
the stones, against trespassers,
against rents, against her own mind.

She grubbed this earth with her own hands,
domineered over this grass plot,
blackguarded her oldest son
into buying it, lived here fifteen years,
attained a final loneliness and—

If you can bring nothing to this place
but your carcass, keep out.

[William Carlos Williams]

Aula de Arqueologia

 não, ela era bem como tu
como mais ninguém foi depois ou é ou virá a ser
e tu procuras ainda a última cara
a promessa do encaixe da mão no perfil
e isso acabou há tantos anos
foi antes mesmo desta cidade
um facto para ser coberto
por ruínas e areias e novas construções e desenterrado
quando alguém voltar para tactear
entre as omoplatas e a cavidade torácica
o que agora está descomposto
e foi esta coisa viva:
o corpo que tu usaste

escavado com o cuidado de pincéis que afastam o pó
quando os arqueólogos desta equipa puderem decidir
que o que em ti esteve vivo é apenas este golpe de teatro
uma coisa para ser guardada numa caixa insignificante
num museu qualquer um corpo são certos indícios
não um objecto estranho ou uma cidade
a que voltaste muitas vezes
ou outra cópia desse livro que amaste e que era
a única coisa a declarar num trânsito mortal
a um qualquer funcionário cansado
de um serviço de estrangeiros e fronteiras

um livro vermelho num dia de festa
demasiada alegria na mesma de um qualquer café
numa terra demasiado pequena para estranhos
como nós não serem olhados como estrangeiros
e o que em ti esteve vivo muito menos
do que esta atmosfera lunar
o último gesto do último dos teus começos

ela era como tu e no entanto deitou-se contigo
muito depois das estações terminais
um inverno tão completo como um naufrágio
tu falaste do calor da tua cidade até à mitologia
florença acesa de guelfos e gibelinos
brancos e negros a tua violência é tanto como a deles
uma vontade cega sem inteligência sem civilização
atacar primeiro antes que te ataquem a ti
uma destas noites a caminho de casa
ao atravessar qualquer uma das pontes
trespassa-te um amor que não esperaste chegado
muito antes da ternura e do desprezo e reparas
como o frio por estas paragens enlouquece as pessoas

e tudo o que agora se vai partir
foram os teus arranjos o teu cuidado com os cacos
diz-lhes adeus enquanto ainda há música
e tu ainda não despiste as asas
não limpaste da cara o pó-de-arroz
e o amor que carregas contigo
não é ainda doente como oum longo cuidado
indigno de aparatos e sem conserto
porque para isto nunca nada esteve pronto

de manhã na espreiteza da passagem
quando tudo for inadiavelmente mais claro
e as lanternas de papel humilhadas de chuva
balançarem nos ramos como um passado
tudo factos que permanecerão desconhecidos
por exemplo: só o tropeço existe de verdade
e isso é porque insistes desde sempre
em usar sapatilhas um tamanho acima
e o dono do bar é um homem envelhecido
que rola as pipas para o mundo subterrâneo da cave
por um alçapão aberto no pavimento
como um encenador prepara a sua cena
sozinho na manhã que rompe em laranja e negro
ambos privados de profecia
apenas tu testemunha e ele testemunhado

e qualquer magia fica com o empregado que o ajuda
o seu trabalho pesado e difícil de besta de carga
a solidão solene dos dois no gelo desta manhã
por algumas moedas e guarida
este rapaz com os braços apoiados na superfício do chão
as pernas a desaparecerem escada abaixo
thomas bernhard empregado de loja
uma infância entre pontes, montanhas, nazis
um pai que nunca chegou, que teve de ser procurado
à espera da próxima carga de braços abertos
num peito que a partir daqui
não vai poder encher-se de ar que chegue
mas por enquanto naufragado num charco
de cerveja escura e espessa
e com a cor e o cheiro do mel
entre o chão e o subterrâneo

tu pensas é ainda tão cedo
e quando anoitecer e tu caminhares
na escuridão da rua para a tua casa apagada
nestes quarteirões carregados de neve
onde cada vez menos dos teus amigos se riem
e onde se acendem os últimos trompetes
e faz tanto frio que o metal da chave se contrai
e não podes sequer abrir a porta da tua morada
lembra-te que não foi esta noite nem este quarto
e aí onde estás desamparado como ficaste
não compres este momento por menos
não te apanhes a dizer
não foi isto o combinado

[Tatiana Faia]

Modo Poético

Quando se passam alguns dias
e o vento balança as placas numeradas
na cabeceira das covas e bate
um calor amarelo sobre inscrições e lápides,
e quando se olhar os retratos e se consegue
dizer com límpida voz:
ele gostava desse terno branco
e quando se entra na fila das viúvas,
batendo papo e cabo de sombrinha,
é que a poeira misericordiosa recobriu coisa e dor,
deu o retoque final.
Pode-se compreender de novo
que esteve tudo certo, o tempo todo
e dizer sem soberba ou horror:
é em sexo, morte e Deus
que eu penso invariavelmente todo dia.
É na presença d’Ele que eu me dispo
e muito mais, d’Ele que não é pudico
e não se ofende com as posições no amor.
Quando tudo se recompõe,
é saltitantes que vamos
cuidar de horta e gaiola.
A mala, a cuia, o chapéu
enchem o nosso coração
como uns amados brinquedos reencontrados.
Muito maior que a morte é a vida.
Um poeta sem orgulho é um homem de dores,
muito mais é de alegrias.
A seu cripto modo anuncia,
às vezes, quase inaudível
em delicado código:
‘Cuidado, entre as gretas do muro
está nascendo a erva…’
Que a fonte da vida é Deus,
há infinitas maneiras de entender.

[Adélia Prado]

Repara na lentidão do adeus

 A palavra navegar não navega
e mesmo assim o verso quer-se mar
e mesmo assim o poeta escreve colete
como se a palavra o salvasse
como se cada fosse cada vez
mais simples nas suas arestas
como se cada fosse realmente
a esquina que dobramos nesse adeus
tão lento, lentíssimo ainda a acenar
e o poeta tão chegado
e mesmo assim

Repara na suspensão do adeus

[Filipa Leal]

I had no idea

Streets gently whistle my name
I‘ll show you all the same
A church to lock all feelings in
where affection is returned
Warm is the distance that I keep
yellow the colour of no sleep
I had no idea
Meet me on the palm of my hand
meet me for a dance
I had no clue what you were after
and it didn‘t matter then
Old is the courtesy you seek
yellow a colour oh so bleak
I had no idea
Warm is the distance that we keep
yellow the colour of no sleep
I had no idea

[Stella Sommer]

 

Peanut Butter

 I am always hungry
& wanting to have
sex. This is a fact.
If you get right
down to it the new
unprocessed peanut
butter is no damn
good & you should
buy it in a jar as
always in the
largest supermarket
you know. And
I am an enemy
of change, as
you know. All
the things I
embrace as new
are in
fact old things,
re-released: swimming,
the sensation of
being dirty in
body and mind
summer as a
time to do
nothing and make
no money. Prayer
as a last re-
sort. Pleasure
as a means,
and then a
means again
with no ends
in sight. I am
absolutely in opposition
to all kinds of
goals. I have
no desire to know
where this, anything
is getting me.
When the water
boils I get
a cup of tea.
Accidentally I
read all the
works of Proust.
It was summer
I was there
so was he. I
write because
I would like
to be used for
years after
my death. Not
only my body
will be compost
but the thoughts
I left during
my life. During
my life I was
a woman with
hazel eyes. Out
the window
is a crooked
silo. Parts
of your
body I think
of as stripes
which I have
learned to
love along. We
swim naked
in ponds &
I write be-
hind your
back. My thoughts
about you are
not exactly
forbidden, but
exalted because
they are useless,
not intended
to get you
because I have
you & you love
me. It’s more
like a playground
where I play
with my reflection
of you until
you come back
and into the
real you I
get to sink
my teeth. With
you I know how
to relax. &
so I work
behind your
back. Which
is lovely.
Nature
is out of control
you tell me &
that’s what’s so
good about
it. I’m immoderately
in love with you,
knocked out by
all your new
white hair

why shouldn’t
something
I have always
known be the
very best there
is. I love
you from my
childhood,
starting back
there when
one day was
just like the
rest, random
growth and
breezes, constant
love, a sand-
wich in the
middle of
day,
a tiny step
in the vastly
conventional
path of
the Sun. I
squint. I
wink. I
take the
ride.

[Eileen Myles]

At the Fishhouses

 Although it is a cold evening,
down by one of the fishhouses
an old man sits netting,
his net, in the gloaming almost invisible
a dark purple-brown,
and his shuttle worn and polished.
The air smells so strong of codfish
it makes one’s nose run and one’s eyes water.
The five fishhouses have steeply peaked roofs
and narrow, cleated gangplanks slant up
to storerooms in the gables
for the wheelbarrows to be pushed up again and down on.
All is silver: the heavy surface of the sea,
swelling slowly as if considering spilling over,
is opaque, but the silver of the benches,
the lobster pots, and masts, scattered
among the wild jagged rocks,
is of an apparent translucence
like the small old buildings with an emerald moss
growing on their shoreward walls.
The big fish tubs are completely lined
with layers of beautiful herring scales
and the wheelbarrows are similarly plastered
with creamy iridescent coats of mail,
with small iridescent flies crawling on them.
Up on the little slope behind the houses,
set in the sparse bright sprinkle of grass,
is an ancient wooden capstan,
cracked, with two long bleached handles
and some melancholy stains, like dried blood,
where the ironwork has rusted.
The old man accepts a Lucky Strike.
He was a friend of my grandfather.
We talk of the decline in the population
and of codfish and herring
while he waits for a herring boat to come in.
There are sequins on his vest and on his thumb.
He has scraped the scales, the principal beauty,
 from unnumbered fish with that black old knife,
the blade of which is almost worn away.

Down at the water’s edge, at the place
where they haul up the boats, up the long ramp
descending into the water, thin silver
tree trunks are laid horizontally
across the gray stones, down and down
at intervals of four or five feet.

Cold dark deep and absolutely clear,
element bearable to no mortal,
to fish and to seals… One seal particularly
I have seen here evening after evening.
He was curious about me. He was interested in music;
like me a believer in total immersion,
so I used to sing him Baptist hymns.
I also sang “A Mighty Fortress Is Our God.”
He stood up in the water and regarded me
steadily, moving his head a little.
Then he would disappear, then suddenly emerge
almost in the same spot, with a sort of shrug
as if it were against his better judgment.
Cold dark deep and absolutely clear,
the clear gray icy water… Back, behind usm
the dignified tall firs being.
Bluish, associating with their shadows,
a million Christmas trees stand
waiting for Christmas. The water seems suspended
above the rounded gray and blue-gray stones.
I have seen it over and over, the same sea, the same,
slightly, indifferently swinging above the sones,
icily free above the stones,
above the stones and then the world.
If you should dip your hand in,
your wrist would ache immediately,
your bones would begin to ache and your hand would burn
as if the water were a transmutation of fire
that feeds on stones and burns with a dark gray flame.
If you tasted it, it would first taste bitter,
then briny, then surely burn your tongue.
It is like what we imagine knowledge to be:
dark, salt, clear, moving, utterly free,
drawn from the cold hard mouth
of the world, derived from the rocky breasts
forever, flowing and drawn, and since
our knowledge is historical, flowing, and flown.

[Elizabeth Bishop]

Quai d’Orléans (for Margaret Miller)

 Each barge on the river easily twos
a mighty wake,
a giant oak-leaf of gray lights
on duller gray;
and behind it real leaves are floating by,
down to the sea.
Mercury-veins on the giant leaves,
the ripples, make
for the sides of the quai, to extinguish themselves
against the walls
as softly as falling-stars come to their ends
at a point in the sky.
And throngs of small leaves, real leaves, trailing them
go drifting by
to disappear as modestly down the sea’s
dissolving halls.
We stand as still as stones to watch
the leaves and ripples
while light and nervous water hold
their interview.
“If what we see could forget us half as easily,”
I want to tell you,
“as it does itself - but for life we’ll not be rid
of the leaves’ fossils.”

[Elizabeth Bishop]

The Weed

I dreamed that dead, and meditating,
I lay upon a grave, or bed,
(at least, some cold and close-built bower).
In the cold heart, its final thought
stood frozen, drawn immense and clear,
stiff and idle as I was there;
and we remained unchanged together
for a year, a minute, an hour.
Suddenly there was a motion,
as startling, there, to every sense
as an explosion. Then it dropped
to insistent, cautious creeping
in the region of the heart,
prodding me from desperate sleep.
I raised my head. A slight young weed
had pushed up through the heart and its
green head was nodding on the breast.
(All this was in the dark.)
It grew an inch like a blade of grass;
next, one leaf shot out of its side
a twisting, waving flag, and then
two leaves moved like a semaphore.
The stem grew thick. The nervous roots
reached to each side; the graceful head
changed its position mysteriously,
since there was neither sun nor moon
to catch its young attention.
The rooted heart began to change
(not beat) and then it split apart
and from it broke a flood of water.
Two rivers glanced off from the sides,
one to the right, one to the left,
two rushing, half-clear streams,
(the ribs made of them two cascades)
which assuredly, smooth as glass,
went off through the fine black grains of earth.
The weed was almost swept away;
it struggled with its leaves,
lifting them fringed with heavy drops.
A few drops fell upon my face
and in my eyes, so I could see
(or, in that black place, thought I saw)
that each drop contained a light,
a small, illuminated scene;
the weed-deflected stream was made
itself of racing images.
(As if a river should carry all
the scenes that it had once reflected
shut in its waters, and not floating
on momentary surfaces.)
The weed stood in the severed heart.
“What are you doing there?” I asked.
It lifted its head all dripping wet
(with my own thoughts?)
and answered then: “I grow”, it said,
“but to divide your heart again.

[Elizabeth Bishop]

 I dwell in Possibility
a fairer house than Prose,
more numerous of windows,
superior of doors.

Of chambers, as the cedars -
impregnable of eye;
and for an everlasting roof
the gables of the sky.

Of visitors - the fairest -
for occupation - this -
the spreading wide my narrow hands
to gather Paradise.

[Emily Dickinson]

A fumaça

A pequena casa entre árvores no lago.
Do telhado sobe fumaça
Sem ela
Quão tristes seriam
Casa, árvores e lago.

[Bertold Brecht, trad. Paulo César de Souza]

L’attesa

 Taci, anima mia. Son questi i tristi
giorni in cui senza volontà si vive,
i giorni dell’attesa disperata.
Come l’albero ignudo a mezzo inverno
che s’attrista nella deserta corte,
io non credo di mettere più foglie
e dubito d’averle messe mai.
Andando per la strada così solo
tra la gente che m’urta e non mi vede,
mi pare d’esser da me stesso assente.
E m’accalco ad udire dov’è ressa,
sosto dalle vetrine abbarbagliato
e mi volto al frusciare di ogni gonna.
Per la voce d’un cantastorie cieco
per l’improvviso lampo d’una nuca
mi sgocciolan dagli occhi sciocche lacrime
mi s’accendon negli occhi cupidigie.
Ché tutta la mia vita è nei miei occhi:
ogni cosa che passa la commuove
come debole vento un’acqua morta.
Io son come uno specchio rassegnato
che riflette ogni cosa per la via:
in me stesso non guardo perché nulla
vi troverei. E venuta la sera, nel mio letto
mi stendo lungo come in una bara.

[Camillo Sbarbaro, 1913]

Dia de festa

Com sobrenome dia de festa
a mulher mora no cóccix da
máquina de escrever morte.

A mulher mora no cóccix da
máquina de escrever inverno.
Com sobrenome dia de festa

a mulher resolve o dilema da
máquina de escrever isto ou
aquilo remédio impaciência.

Um céu propício lá fora e a
mulher insiste na máquina de
escrever como se fiação fosse.

Isso aquilo luminária e sorte
são variações da mulher no
cóccix da máquina do mundo.

[Edimilson de Almeida Pereira]

Arte poética II

 A poesia não me pede propriamente uma especialização pois sua arte é uma arte do ser. Também não é tempo ou trabalho o que a poesia me pede. Nem me pede uma ciência nem uma estética nem uma teoria. Pede-me antes a inteireza do meu ser, uma consciência mais funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que eu posso controlar. Pede-me uma instransigência sem lacuna. Pede-me que arranque da minha vida que se quebra, gasta, corrompe e dilui uma túnica sem costura. Pede-me que viva atenta como uma antena, pede-me que viva sempre, que nunca me esqueça. Pede-me uma obstinação sem tréguas, densa e compacta.

Pois a poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso o poema não fala de uma vida ideal mas sim de uma vida concreta: ângulo da janela, ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, respiração da noite, perfume da tília e do orégão.

É esta relação com o universo que define o poema como poema, como obra de criação poética. Quando há apenas relação com uma matéria há apenas artesanato.

É o artesanato que pede especialização, ciência, trabalho, tempo e uma estética. Todo o poeta, todo o artista é artesão de uma linguagem. Mas o artesanato das artes poéticas não nasce de si mesmo, isto é, da relação com uma matéria, como nas artes artesanais. O artesanato das artes poéticas nasce da própria poesia à qual está consubstancialmente unido. Se um poeta diz “obscuro”, “amplo”, “barco”, “pedra” é porque estas palavras nomeiam a sua visão do mundo, a sua ligação com as coisas. Não foram palavras escolhidas esteticamente pela sua beleza, foram escolhidas pela sua realidade, pela sua necessidade, pelo seu poder poético de estabelecer uma aliança. E é da obstinação sem tréguas que a poesia exige que nasce o “obstinado rigor” do poema. O verso é denso, tenso como um arco, exactamente dito, porque os dias foram densos, tensos como arcos, exactamente vividos. O equilíbrio das palavras entre si é o equilíbrio dos momentos entre si.

E no quadro sensível do poema vejo para onde vou, reconheço o meu caminho, o meu reino, a minha vida.

[Sophia de Mello Breyner Andresen]

You, Doctor Martin

 You, Doctor Martin, walk
from breakfast to madness. Late August,
I speed through the antiseptic tunnel
where the moving dead still talk
of pushing their bones against the thrust
of cure. And I am queen of this summer hotel
or the laughing bee on a stalk

of death. We stand in broken
lines and wait while they unlock
the door and count us at the frozen gates
of dinner. The shibboleth is spoken
and we move to gravy in our smock
of smiles. We chew in rows, our plates
scratch and whine like chalk

in school. There are no knives
for cutting your throat. I make
moccasins all morning. At first my hands
kept empty, unraveled for the lives
they used to work. Now I learn to take
them back, each angry finger that demands
I mend what another will break

tomorrow. Of course, I love you;
you lean above the plastic sky,
god of our block, prince of all the foxes.
The breaking crowns are new
that Jack wore. Your third eye
moves among us and lights the separate boxes
where we sleep or cry.

[Anne Sexton]

In celebration of my uterus

 Everyone in me is a bird.
I am beating all my wings.
They wanted to cut you out
but they will not.
They said you were immeasurably empty
but you are not.
They said you were sick unto dying
but they were wrong.
You are singing like a school girl.
You are not torn.

Sweet weight,
in celebration of the woman I am
and of the soul of the woman I am
and of the central creature and its delight
I sing for you. I dare to live.
Hello, spirit. Hello, cup.
Fasten, cover. Cover that does contain.
Hello to the soil of the fields.
Welcome, roots.

Each cell has a life.
There is enough here to please a nation.
It is enough that the populace own these goods.
Any person, any commonwealth would say of it,
“It is good this year that we may plant again
and think forward to a harvest.
A blight had been forecast and has been cast out.”
Many women are singing together of this:
one is in a shoe factory cursing the machine,
one is at the aquarium tending a seal,
one is dull at the wheel of her Ford,
one is at the toll gate collecting,
one is tying the cord of a calf in Arizona,
one is straddling a cello in Russia,
one is shifting pots on the stove in Egypt,
one is painting her bedroom walls moon color,
one is dying but remembering a breakfast,
one is stretching on her mat in Thailand,
one is wiping the ass of her child,
one is staring out the window of a train
in the middle of Wyoming and one is
anywhere and some are everywhere and all
seem to be singing, although some can not
sing a note.

Sweet weight,
in celebration of the woman I am
let me carry a ten-foot scarf,
let me drum for the nineteen-year-olds,
let me carry bowls for the offering
(if that is my part).
Let me study the cardiovascular tissue,
let me examine the angular distance of meteors,
let me suck on the stems of flowers
(if that is my part).
Let me make certain tribal figures
(if that is my part).
For this thing the body needs
let me sing
for the supper,
for the kissing,
for the correct
yes.

[Anne Sexton]

No Golfo de Corinto

No Golfo de Corinto
a respiração dos deuses é visível:
é um arco um halo uma nuvem
em redor das montanhas e das ilhas
como um céu mais intenso e deslumbrado

E também o cheiro dos deuses invade as estradas
é um cheiro a resina a mel e fruta
onde se desenham grandes corpos lisos e brilhantes
sem dor sem suor sem pranto
sem a menor ruga de tempo

E uma luz cor de amora no poente se espalha
é o sangue dos deuses imortal e secreto
que se une ao nosso sangue e com ele batalha

[Sophia de Mello Breyner Andresen]

Ressurgiremos

Ressurgiremos ainda sob os muros de Cnossos
E em Delphos centro do mundo
Ressurgiremos ainda na dura luz de Creta

Ressurgiremos ali onde as palavras
São o nome das coisas
E onde são claros e vivos os contornos
Na aguda luz de Creta

Ressurgiremos ali onde pedra estrela e tempo
São o reino do homem
Ressurgiremos para olhar para a terra de frente
Na luz limpa de Creta

Pois convém tornar claro o coração do homem
E erguer a negra exactidão da cruz
Na luz branca de Creta

[Sophia de Mello Breyner Andresen]

Marinheiro sem mar

Longe o marinheiro tem
Uma serena praia de mãos puras
Mas perdido caminha nas obscuras
Ruas da cidade sem piedade

Todas as cidades são navios
Carregados de cães uivando à lua
Carregados de anões e mortos frios

E ele vai baloiçando como um mastro
Aos seus ombros apoiam-se as esquinas
Vai sem aves nem ondas repentinas
Somente sombras nadam no seu rastro.

Nas confusas redes do seu pensamento
Prendem-se obscuras medusas
Morta cai a noite com o vento

E sobe por escadas escondidas
E vira por ruas sem nome
Pela própria escuridão conduzido
Com pupilas transparentes e de vidro

Vai nos contínuos corredores
Onde os polvos da sombra o estrangulam
E as luzes como peixes voadores
O alucinam.

Porque ele tem um navio mas sem mastros
Porque o mar secou
Porque o destino apagou
O seu nome dos astros
Porque o seu caminho foi perdido
O seu triunfo vendido
E ele tem as mãos pesadas de desastres

E é em vão que ele se ergue entre os sinais
Buscando a luz da madrugada pura
Chamando pelo vento que há nos cais

Nenhum mar lavará o nojo do seu rosto
As imagens são eternas e precisas
Em vão chamará pelo vento
Que a direito corre pelas praias lisas

Ele morrerá sem mar e sem navios
Sem rumo distante e sem mastros esguios
Morrerá entre paredes cinzentas
Pedaços de braços e restos de cabeças
Boiarão na penumbra das madrugadas lentas
                             *
E ao Norte e ao Sul
E ao Leste e ao Poente
Os quatro cavalos do vento
Sacodem as suas crinas

E o espírito do mar pergunta:
“Que é feito daquele
Para quem eu guardava um reino puro
De espaço e de vazio
De ondas brancas e fundas
E de verde frio?”

Ele não dormirá na areia lisa
Entre medusas, conchas e corais

Ele dormirá na podridão
E ao Norte e ao Sul
E ao Leste e ao Poente
Os quatro cavalos do vento
Exactos e transparentes
O esquecerão

Porque ele se perdeu do que era eterno
E separou o seu corpo da unidade
E se entregou ao tempo dividido
Das ruas sem piedade.

[Sophia de Mello Breyner Andresen]

The Bridge

I love.  Wouldn’t we all like to start
a poem with “I love…”?  I would.
I mean, I love the fact there are parallel lines
in the word “parallel,” love how

words sometimes mirror what they mean.
I love mirrors and that stupid tale
about Narcissus.  I suppose
there is some Narcissism in that.

You know, Narcissism, what you
remind me to avoid almost all the time.
Yeah, I love Narcissism.  I do.
But what I really love is ice cream.

Remember how I told you
no amount of ice cream can survive
a week in my freezer.  You didn’t believe me,
did you?  No, you didn’t.  But you know now

how true that is.  I love
that you know my Achilles heel
is none other than ice cream—
so chilly, so common.

And I love fountain pens.  I mean
I just love them.  Cleaning them,
filling them with ink, fills me
with a kind of joy, even if joy

is so 1950.  I know, no one talks about
joy anymore.  It is even more taboo
than love.  And so, of course, I love joy.
I love the way joy sounds as it exits

your mouth.  You know, the word joy.
How joyous is that.  It makes me think
of bubbles, chandeliers, dandelions.
I love the way the mind runs

that pathway from bubbles to dandelions.
Yes, I love a lot.  And right here,
walking down this street,
I love the way we make

a bridge, a suspension bridge
—almost as beautiful as the
Golden Gate Bridge—swaying
as we walk hand in hand.

[C. Dale Young]

O apanhador de desperdícios

 Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

[Manoel de Barros]

Sob o Sol

Sob o sol em meu leito após  a água -
Sob o sol e sob o reflexo enorme do sol sobre o mar,
Sob a janela,
Sob os reflexos e os reflexos dos reflexos
Do sol e dos sóis sobre o mar
Nos vidros,
Após o banho, o café, as ideias,
Nu sob o sol em meu leito todo iluminado
Nu - só - louco -
Eu!

 [Paul Valéry]

 Os cacos da vida, colados, formam uma estranha xícara.
Sem uso,
ela nos espia do aparador.

 [Carlos Drummond de Andrade]

Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

[Carlos Drummond de Andrade]

A mulher de Ló

 Estátua de sal
rosto chamuscado
pelo fogo de Sodoma.
O que desejavas
ao olhar para trás?
Tiveste saudade
de tua casa, nostalgia
das flores de teu
pomar ou, curiosa,
apenas quiseste saber?
Um gesto apenas
– e a implacável
execração dos séculos.

[Carlos Machado]

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Hoje penso em dois dos muitos mortos afogados
a poucos metros dessas costas ensolaradas
achados sob o casco, apertados, abraçados.

Indago se nos ossos crescerá o coral
e o que será do sangue dentro do sal,
então estudo – procuro nos velhos livros
de medicina legal de meu pai –
um manual onde as vítimas
são fotografadas junto com criminosos
em desordem: suicidas, assassinos, órgãos genitais
Nada de paisagem só o céu de aço das fotos,
raramente uma cadeira um torso coberto por um lençol,
os pés em cima de uma maca, nus.

Leio. Descubro que o termo exato é livor mortis.
O sangue se acumula em baixo e coagula
antes rubro depois roxo, enfim, se torna pó
e poe, sim, dissolver no sal.

[Antonella Anedda]
[09.06.2018]

 Io qui vagando al limitare intorno,
invan la pioggia invoco e la tempesta,
acciò che la ritenga al mio soggiorno.

Pure il vento muggía nella foresta,
e muggía tra le nubi il tuono errante,
pria che l’aurora in ciel fosse ridesta.

O care nubi, o cielo, o terra, o piante,
parte la donna mia: pietà, se trova
pietà nel mondo un infelice amante.

O turbine, or ti sveglia, or fate prova
di sommergermi, o nembi, insino a tanto
che il sole ad altre terre il dí rinnova.

S’apre il ciel, cade il soffio, in ogni canto
posan l’erbe e le frondi, e m’abbarbaglia
le luci il crudo Sol pregne di pianto. 

[Giacomo Leopardi]

L’ultimo canto di Saffo

 Placida notte, e verecondo raggio
della cadente luna; e tu che spunti
fra la tacita selva in su la rupe,
nunzio del giorno; oh dilettose e care
mentre ignote mi fur l’erinni e il fato,
sembianze agli occhi miei; già non arride
spettacol molle ai disperati affetti.
Noi l’insueto allor gaudio ravviva
quando per l’etra liquido si volve
e per li campi trepidanti il flutto
polveroso de’ Noti, e quando il carro,
grave carro di Giove a noi sul capo,
tonando il tenebroso aere divide.
Noi per le balze e le profonde valli
natar giova tra’ nembi, e noi la vasta
fuga de’ greggi sbigottiti, o d’alto
fiume alla dubbia sponda
il suono e la vittrice ira dell’onda.

Bello il tuo manto, o divo cielo, e bella
sei tu, rorida terra. Ahi di cotesta
infinita beltà parte nessuna
alla misera Saffo i numi e l’empia
sorte non fenno. A’ tuoi superbi regni
vile, o natura, e grave ospite addetta,
e dispregiata amante, alle vezzose
tue forme il core e le pupille invano
supplichevole intendo. A me non ride
l’aprico margo, e dall’eterea porta
il mattutino albor; me non il canto
de’ colorati augelli, e non de’ faggi
il murmure saluta: e dove all’ombra
degl’inchinati salici dispiega
candido rivo il puro seno, al mio
lubrico piè le flessuose linfe
disdegnando sottragge,
e preme in fuga l’odorate spiagge.

Qual fallo mai, qual si nefando eccesso
macchiommi anzi il natale, onde si torvo
il ciel mi fosse e di fortuna il volto?
In che peccai bambina, allor che ignara
di misfatto è la vita, onde poi scemo
di giovanezza, e disfiorato, al fuso
dell’indomita Parca si volvesse
il ferrigno mio stame? Incaute voci
spande il tuo labbro: i destinati eventi
move arcano consiglio. Arcano è tutto,
fuor che il nostro dolor. Negletta prole
nascemmo al pianto, e la ragione in grembo
de’ celesti si posa. Oh cure, oh speme
de’ piú verd’anni! Alle sembianze il Padre,
Alle amene sembianze eterno regno
diè nelle genti; e per virili imprese,
per dotta lira o canto,
virtù non luce in disadorno ammanto.

Morremo. Il velo indegno a terra sparto,
rifuggirà l’ignudo animo a Dite,
e il crudo fallo emenderà del cieco
dispensator de’ casi. E tu cui lungo
amore indarno, e lunga fede, e vano
d’implacato desio furor mi strinse,
vivi felice, se felice in terra
visse nato mortal. Me non asperse
del soave licor del doglio avaro
Giove, poi che perir gl’inganni e il sogno
della mia fanciullezza. Ogni piú lieto
giorno di nostra età primio s’invola.
Sottentra il morbo, e la vecchiezza, e l’ombra
della gelida morte. Ecco di tante
sperate palme e dilettosi errori,
il Tartaro m’avanza: e il prode ingegno
han la tenaria Diva,
e l’atra notte, e la silente riva.

[Giacomo Leopardi]
[29.04.2018]

 

if there is a river
more beautiful than this
bright as the blood
red edge of the moon          if
 
there is a river
more faithful than this
returning each month
to the same delta          if there
 
is a river
braver than this
coming and coming in a surge
of passion, of pain          if there is
 
a river
more ancient than this
daughter of eve
mother of cain and of abel          if there is in
 
the universe such a river          if
there is some where water
more powerful than this wild
water
pray that it flows also
through animals
beautiful and faithful and ancient
and female and brave

[Lucille Clifton]
[24.04.2018]

The earth is a living thing

 is a black shambling bear
ruffling its wild back and tossing
mountains into the sea

is a black hawk circling
the burying ground circling the bones
picked clean and discarded

is a fish black blind in the belly of water
is a diamond blind in the black belly of a coal

is a black and living thing
is a favorite child
of the universe
feel her rolling her hand
in its kinky hair
feel her brushing it clean

[Lucille Clifton]
[23.04.2018]

Alone

 

Lying, thinking
Last night
How to find my soul a home
Where water is not thirsty
And bread loaf is not stone
I came up with one thing
And I don’t believe I’m wrong
That nobody,
But nobody
Can make it out here alone.

Alone, all alone
Nobody, but nobody
Can make it out here alone.

There are some millionaires
With money they can’t use
Their wives run round like banshees
Their children sing the blues
They’ve got expensive doctors
To cure their hearts of stone.
But nobody
No, nobody
Can make it out here alone.

Alone, all alone
Nobody, but nobody
Can make it out here alone.

Now if you listen closely
I’ll tell you what I know
Storm clouds are gathering
The wind is gonna blow
The race of man is suffering
And I can hear the moan,
‘Cause nobody,
But nobody
Can make it out here alone.

Alone, all alone
Nobody, but nobody
Can make it out here alone.


[Maya Angelou]
[06.04.2018]

domingo, 16 de agosto de 2020

The knot

 The problem was how to begin with the end
and then it turned out there were two ends:
the end within the continuing
that, continuing, enveloped
the end. You passed yourself
coming and going, went through
one loop, then another,
what was behind drawn
through at a
slide until
it rose
before you, sprung.
Tangle like a bramble,
like a rose. Start,
start again against
the tight-
ening. A knife
could give up
on patience, but you
were born among
the dull and
kind, who wait
for Spring, and
lightening
and lightning.

[Susan Stewart]
[31.03.2018]

Helen Considers Leaving Troy

 after a bottle of chianti
             Don’t mistake me, I’ve pondered this before.
             But tonight I’m serious.
             One bottle and the end is certain.
             Tomorrow: Lawyer. Boxes. Road map. More wine.

while walking the dog
             Paris won’t even notice.
             I’ll feed the pup, pack a quick bag,
             take out the trash, and slip away into the night.
             Home to Sparta. Or Santa Monica.
             An island off the southernmost tip of Peru.
             Disappear. Like fog from a mirror.

while paying the bills
             Guess I’ll have to give up that whole new career plan.
             Academic dreams. House-and-yard dreams.
             Stay on like this a few more years. Or forever.
             Face the bottomless nights in solitude.
             Wither. Drink. Write poems about dead ends.
             Drink more. Work. Pay rent.
             End.

when Paris comes home drunk
             Call Clytemnestra. Make a plan.
             Move a few things into Clym’s spare room,
             storage for the rest. Set up arbitration.
             File what needs to be filed.
             Head to Athens. Or back to Crown Heights.
             Maybe find a roommate in Fort Greene.
             All I know is out out out.
             Sure, I can blame the past or the scotch
             or my own smartmouth or my worst rage,
             but blame is a word. I need a weapon.

when Menelaus writes a letter
             As if.

from the ocean floor
             Bathtub. Ocean. Whichever. All this water.
             Yes, Paris pulled me from the ruby tub.
             Menelaus fed me to the river a year before that.
             Metaphorical, and not at all.
             O, a girl and her water. Such romance.
             Gaudy. And gauche.
             How do I leave what cared enough to keep me?
             What of those goddamn ships?
             That ridiculous horse? All those men?
             Now, wretched little me. All this dizzy sadness.
             How many kings to tame one woman? Silence her?
             How many to put her under?

 

[Jeanann Verlee]
[26.02.2018]

Signos

 “Endereço nos cabelos leva a mais do que leio
onde estaõ dançando em ritmos vermelhos.
Dançam tatuagens alheias a seu desenho.
As siglas dos mistérios se fecham sem correntes
um corpo que intenso se move na inércia.
E sobre outro corpo - maestro por urgência -
dança como se antes vencesse o desespero.
Dentro da música o pente a silhueta a hora
em que a última fera sabe o sigilo dos velhos.
Os ritmos que entendo pelo ruído dos dentes
são outros são estes atentos como espelhos.
Aquela que me dança na mais perfeita esfera
luta com seus nervos e as cartas que escreve.
O blues me atravessa uma rajada de espíritos
as ilusões viram seta navegando pelos discos.
O céu se dobra em ruas as flores nos oceanos.
A dança que se espera dura se não dançamos.

[Edimilson de Almeida Pereira]
[25.02.2018]

De Pedra e Cal

De pedra e cal é a cidade
Com campanários brancos
De pedra e cal é a cidade
Com algumas figueiras.

De pedra e cal são
Os labirintos brancos
E a brancura do sal
Sobe pelas escadas.

De pedra e cal a cidade
Toda quadriculada
Como um xadrez jogado
Só com pedras brancas.

Um xadrez só de torres
E cavalos-marinhos
Que sacodem as crinas
Sob os olhos das moiras

Caminha devagar
Porque o chão é caiado.

[Sophia de Mello Breyner Andresen]
[21.02.2018]

Desemprego

 

“Vou à esquina com os velhos
navegar o calor de altas ondas.

O simca chambord um lagarto,
latarias e o óleo no ferro velho.

Um cigarro trocado de mãos,
o gesto que apavora à la 45.

Na esquina os olhos lentes.
A alegria da escola no meio fio

desarma o cinza de repente.
Pernas esguias contra o áspero.

O atingido é um circo, o que
não fala às tias perdeu o ônibus.

A casa-marquise recebe primos.
Um cigarro trocado, dívidas não.

No desafio, camelôs de farol,
a economia dez balas por cinco.

Penso os discos que tive, o
que me falta e serve também.

Manobram o simca lagarto ao
sol, os velhos riem.

As ondas oscilam como se
o Ex dirigisse o filme do caos.

Na esquina, o bairro atravessa,
a lataria ferve a quarenta graus.

[Edimilson de Almeida Pereira]
[20.02.2018]

Domingo

O avô vê o eclipse
pela água na bacia.
Homem pontiagudo.

De repente aquela
incisão nos ouvidos.
Aeroplano duvidoso.

Depois o conflito
deslocando a vista.
O coração primeiro.

O blues numa
vitrola da vizinhança.
Como se as unhas

sangrassem junto.
E o domingo
levantasse voo.

[Edimilson de Almeida Pereira]
[20.02.2018]

 Tranquility at length, when autumn comes,
Will lie upon the spirit like that haze
Touching far islands on fine autumn days
With tenderest blue, like bloom on purple plums;
Harvest will ring, but not as summer hums,
With noisy enterprise — to broaden, raise,
Proceed, proclaim, estabish: autumn stays
The marching year one moment; stills the drums.
The sits the insistent cricket in the grass;
But on the gravel crawls the chilly bee;
And all is over that could come to pass
Last year; exceptin this: the mind is free
One moment, to compute, refute, amass,
Catalogue, question, contemplate, and see.

[Edna St. Vincent Millay]
[11.02.2018]

Fontaine, Je Ne Boirai Pas de Ton Eau!

I know I might have lived in such a way
As to have suffered only pain:
Loving not man nor dog;
Not money, even; feeling
Toothache perhaps, but never more than an hour away
From skill and novocaine;
Making no contacts, dealing with life through agents, drinking one cocktail, betting two dollars, wearing raincoats in the rain;
Betrayed at length by no one but the fog
Whispering to the wing of the plane.

“Fountain,” I have cried to that ububbling well, “I will not drink of thy water!” Yet I thirst
For a mouthful of – not to swallow, only to rinse my mouth in – peace. And while the eyes of the past condemn,
The eyes of the present narrow into assignation. And…
Worst…
The young are so old, they are born with their fingers crossed; I shall get no help from them.


[Edna St. Vincent Millay]
[08.02.2018]

Mandriagem

 “sem tir-te nem guar-te
descubro no dicionário a avidez
da minha língua atenta
às formigas; hirta agora;
agora solta contra a
tua, imaginando que
sons negros estaria
talvez a fabricar
a superfície do teu lenho;
procuro o tronco, a arte
de provocar lentamente
vidinhas, porosidades
sugando a página; o acaso
constrange meu abraço;
produz cópias, leituras,
corrimentos de matéria escrita;
procuro uma forma
cindida, a robusta
madeira da tua espécie;
introduzo no mastro
indícios da minha origem; os distantes
tetos portugueses, portos,
oliveiras decifradas pelo
ócio; como a folhear
pelo caminho a riqueza
vadia dos vocábulos; em
listas, em camadas, em inesperadas
posições que meu lado pensante
fascina; desistir no intervalo
a dura carpintaria e
abordar estreitamente a
fluidez de outro carlos; as mãos
indolentes já esquecem
marcas, calos, pequenas
alusões internas, agora riscos
que a cigana lê,
distraída, inseticida,
mística vagabunda, os cultos
todos da infância; sair
de trás das saias, dançar
em sedução para
comover teu fogo
retido antes em sílabas,
em colunas de palha, em
calculadas coreografias;
me sinto cegamente
onipotente, hoje posso
(escrever) tudo, me lambuzo
de escrever, escrevo
peixes, imitação de
peixes, cobra aquática
recolhendo no seu trânsito
a insuficiência, o garbo
e o dorso (altivo) dessa
voz, embarco com gula,
pressa de engolir o engano;
estômago errante, outros
bichos; vadear
o rio acima ou abaixo
da coragem; e pôr fim
à desejada (meu pai, minha
mãe) faina original
com um movimento fortuito;
um acidente me corta a
boca; salivo aos
trancos o acarminado acarneirado
alfabeto irregular
preso entre os teus
flancos”
 

[Ana Cristina Cesar]
[07.02.2018]

Tenho preguiça
pelos filhos que vão nascer.

Teremos que explicar
tanta cousa a tantos deles.
Um dia hão de me perguntar
Tudo o que perguntei:
Mãe, por que não posso
ver Augusto quando quero?
Mãe, andei lendo muito esses dias
e estou quase chegando
a encontrar o que eu queria.

Inutilidade das palavras.

Tenho preguiça,
Tanta preguiça
Pelos filhos que vão nascer.
Dez, vinte, trinta anos
e estarão procurando alguma cousa.
Nunca se lembrarão
daqueles que já morreram
e procuraram tanto.
Vão custar (ó deuses)
a entender aqueles
que se mataram.
Os filhos vão nascer,
coitados!
Hão de pensar que são eles
os destinados.
Hão de pensar que você
nunca passou o que eles estão passando.
Os filhos que vão nascer…

Insatisfeitos.
Incompreendidos.


[Hilda Hilst]
[03.02.2018]

Hola, Spleen

 

“um dia
ela me disse
“hola, spleen”
e eu demorei mas depois
percebi que era uma
frase sobre
o tempo.

talvez
um jeito de dar
as boas-vindas,
mas a gente nunca sabe
o que vem depois.
um dia quis ler em voz alta
um poema chamado
“hola, spleen”,
mas quando chegou a hora
fiquei muito muito gripada,
e o que foi pior
o que me impediu de ler
foi que fiquei
sem voz.

se tivesse gravado
o poema antes,
podia ligar a voz
e tocar em vez de ler,
mas eu não tinha
uma voz gravada
e não havia como produzir
voz.

então, combinei
que faria a leitura outro dia
e ainda faltava um mês
para chegar a leitura que vou chamar
aqui de caixa-preta
e eu não tinha ideia
de como eu estaria no dia da caixa-preta
e pensei que se este mês
seguisse o ritmo acelerado
e catastrófico deste e do último ano
tanta coisa já teria
acontecido hoje,
que me dava medo
imaginar.

assim,
esta voz que fala aqui
é a voz de uma marília de um mês atrás
é a minha voz falando a partir do passado,
é a minha voz,
mas sem controle.

há um mês eu não tinha
como prever nada
e fiquei me
perguntando:
— como fazer para essas palavras escritas
há um mês dizerem algo
sobre estar aqui
agora?
e eu não soube responder.
então, fiquei me perguntando
se hoje estaria chovendo
ou fazendo sol,
se faria frio ou não,
e se haveria poeira no ar.
eu sempre me surpreendo
com a poeira que turva a vista:
de repente no meio do dia
uma poeira que se ergue,
uma nuvem
de poeira,
pode ser a poeira vinda das coisas quebradas
todos os dias na vida das pessoas
e eu fiquei pensando
se estaria muito seco nesse dia ou não
e pensei que talvez a gente pudesse
fazer silêncio
e deixar a escuta aberta
para ouvir.

talvez a gente pudesse fazer silêncio
e de repente neste silêncio
acontecer de ouvir algo por detrás
dos ruídos das máquinas voadoras que
cruzam o céu.

talvez não desse para ouvir as máquinas voadoras
neste dia,
foi o que pensei,
mas eu me enganei
porque hoje
desde cedo
os helicópteros estão voando.

— vocês estão ouvindo?
um som infernal
estrelas caindo do céu
em cima da cabeça
com as pontas viradas
para baixo.
o som está cada vez mais perto,
posso encostar a mão
se me viro vejo a sombra
em câmera lenta
sobre a cabeça.

imaginem que isso aqui é um quadrado
com drones volantes,
ou uma cena congelada
com o céu cheio de zepelins,
mas o som é um só:
barulho de máquinas
voadoras
pelo céu.

se a gente prestar atenção e fizer silêncio
— se a gente prestar atenção e fizer
silêncio —
pode ser que ouça
alguma mensagem
perdida no ar.”


[Marília Garcia, em Câmera Lenta]
[30.01.2018]

Insomnio

 Sigue mi mente
hacinando desechos
que me invaden
invaden mi poesía
mi universo
y no me dejan
conciliar el sueño.
¿Qué puedo hacer
para extinguirlos
para lavar mi mente
y que vuelva la paz?
No lo consigue el llanto
ni la oración
ni tú.
Es hora de emigrar
de confundirme con la tierra
de esfumarme.

[Claribel Alegría]
[28.01.2018]

 People that build their houses inland,
  People that buy a plot of ground
Shaped like a house, and build a house there,
  Far from the sea-board, far from the sound

Of water sucking the hollow ledges,
  Tons of water striking the shore, –
What do they long for, as I long for
  One salt smell of the sea once more?

People the waves have not awakened,
  Spanking the boats at the harbour’s head,
What do they long for, as I long for, –
  Starting up in my inland bed,

Beating the narrow walls, and finding
  Neither a window nor a door,
Screaming to God for death by drowning, –
  One salt taste of the sea once more?

[Edna St. Vincent Millay]
[06.01.2018]

 No matter what I say,
  All that I really love
Is the rain that flattens on the bay,
  And the eel-grass in the cove;
The jingle-shells that lie and bleach
  At the tide-line, and the trace
Of higher tides along the beach:
  Nothing in this place.

[Edna St. Vincent Millay]
[04.01.2018]

First Fig

My candle burns at both ends;
 It will not last the night;
But ah, my foes, and oh, my friends –
 It gives a lovely light!

Second Fig

Safe upon the solid rock the ugly houses stand:
Come and see my shining palace built upon the sand!

[Edna St. Vincent Millay]
[02.01.2019]

O quereres

 Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alta, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão

Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês

Ah! bruta flor do querer
Ah! bruta flor, bruta flor

Onde queres o ato, eu sou espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói

Eu queria querer-te e amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és

Ah! bruta flor do querer
Ah! bruta flor, bruta flor

Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock’n’roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus

O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há e do que não há em mim

 [Caetano Veloso]
[31.12.2018]

 Time does not bring relief; you all have lied
Who told me time would ease me of my pain!
I miss him in the weeping of the rain;
I want him at the shrinking of the tide;
The old snows melt from every mountain-side,
And last year’s leave are smoke in every lane;
But last year’s bitter loving must remain
Heaped on my heart, and my old thoughts abide.
There are a hundred places where I fear
To go, – so with his memory they brim.
And entering with relief some quiet place
Where never fell his foot or shone his face
I say, “There is no memory of him here!”
And so stand stricken, so remembering him.

[Edna St. Vincent Millay]
[31.12.2018]

La rabbia

 

“Vado sulla porta del giardino, un piccolo
infossato cunicolo di pietra al piano
terra, contro il suburbano
orto, rimasto lì dai giorgi di Mameli,
coi suoi pini, le sue rose, i suoi radicchi.
Intorno, dietro questo paradiso di paesana
tranquilità, compaiono
le facciate gialle dei grattacieli
fascisti, degli ultimi cantieri:
e sotto, oltre spessi lastroni di vetro,
c’è una rimessa, sepolcrale. Sonnecchia
al bel sole, un po’ freddo, il grande orto
con la casetta, in mezzo, ottocentesca,
candida, dove Mameli è morto,
e un merlo, cantando, trama la sua tresca.

Questo mio povero giardino, tutto
di pietra… Ma ho comprato un oleandro
- nuovo orgoglio di mia madre -
e vasi di ogni specie di fiori,
e anche un fraticello di legno, un putto
obbediente e roseo, un po’ malandro,
trovato a Porta Portese, andando
a cercare mobili per la nuova casa. Colori,
pochi, la stagione è così acerba: ori
leggeri di luce, e verdi, tutti i verdi…
Solo un po’ di rosso, torvo e splendido,
seminascosto, amaro, senza gioia:
una rosa. Pende umile
sul ramo adolescente, come a una feritoia,
timido avanzo d’un paradiso in frantumi…

Da vicino, è ancora più dimessa, pare
una povera cosa indifesa e nuda,
una pura attitudine
della natura, che si trova all’aria, al sole,
viva, ma di una vita che la illude,
e la umilia, che la fa quasi vergognare
d’essere così rude
nella sua estrema tenerezza di fiore.
Mi avvicino più ancora, ne sento l’odore…
Ah, gridare è poco, ed è poco tacere:
niente può esprimere una esistenza intera!
Rinuncio a ogni atto… So soltanto
che in questa rosa resto a respirare,
in un solo misero istante,
l’odore della mia vita: l’odore di mia madre…

Perché non reagisco, perché non tremo
di gioi, o godo di qualche pura angoscia?
Perché non so riconoscere
questo antico nodo della mia esistenza?
Lo so: perché in me è ormai chiuso il demone
della rabbia. Un piccolo, sordo, fosco
sentimento che m’intossica:
esaurimento, dicono, febbrile impazienza
dei nervi: ma non ne è libera più la coscienza.
Il dolore che da me a poco a poco mi aliena,
se io mi abbandono appena,
si stacca da me, vortica per conto suo,
mi pulsa disordinato alle tempie
mi riempie il cuore di pus,
non sono più padrone del mio tempo…

Niente avrebbe potuto, una volta, vincermi.
Ero chiuso nella mia vita come nel ventre
materno, in quest’ardente
odore di umile rosa bagnata.
Ma lottavo per uscirne, là nella provincia
campestre, ventenne poeta, sempre, sempre
a soffrire disperatamente,
disperatamente a gioire… La lotta è terminata
con la vittoria. La mia esistenza privata
non è più racchiusa tra i petali d’una rosa
- una casa, una madre, una passione affannosa.
È pubblica. Ma anche il mondo che m’era ignoto
mi siè accostato, familiare,
si è fatto conoscere, e, a poco a poco,
mi si è imposto, necessario, brutale.

Non posso ora fingere di non saperlo:
o di non sapere come esso mi vuole.
Che specie di amore
conti in questo rapporto, che intese infami.
Non brucia una fiamma in questo inferno
di aridità, e questo arido furore
che impedisce al mio cuore
di reagire a un profumo, è un rottame
della passione… A quasi quarant’anni,
io mi trovo alla rabbia, come un giovane
che di sé non sa altro che è nuovo,
e si accanisce contro il vecchio mondo.
E, come un giovane, senza pietà
o pudore, io non nascondo
questo mio stato: non avrò pace, mai.”


[Pier Paolo Pasolini]
[05.12.2018]

Cogito

 eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim

[Torquato Neto]
[17.11.2018]

90 North

At home, in my flannel gown, like a bear to its floe,
I clambered to bed; up the globe’s impossible sides
I sailed all night—till at last, with my black beard,
My furs and my dogs, I stood at the northern pole.

There in the childish night my companions lay frozen,
The stiff furs knocked at my starveling throat,
And I gave my great sigh: the flakes came huddling,
Were they really my end? In the darkness I turned to my rest.

—Here, the flag snaps in the glare and silence
Of the unbroken ice. I stand here,
The dogs bark, my beard is black, and I stare
At the North Pole …
                                        And now what? Why, go back.

Turn as I please, my step is to the south.
The world—my world spins on this final point
Of cold and wretchedness: all lines, all winds
End in this whirlpool I at last discover.

And it is meaningless. In the child’s bed
After the night’s voyage, in that warm world
Where people work and suffer for the end
That crowns the pain—in that Cloud-Cuckoo-Land

I reached my North and it had meaning.
Here at the actual pole of my existence,
Where all that I have done is meaningless,
Where I die or live by accident alone—

Where, living or dying, I am still alone;
Here where North, the night, the berg of death
Crowd me out of the ignorant darkness,
I see at last that all the knowledge
 
I wrung from the darkness—that the darkness flung me—
Is worthless as ignorance: nothing comes from nothing,
The darkness from the darkness. Pain comes from the darkness
And we call it wisdom. It is pain.


[Randall Jarrell]
[30.10.2018]

Ego Tripping

 

I was born in the congo
I walked to the fertile crescent and built
   the sphinx
I designed a pyramid so tough that a star
   that only glows every one hundred years falls
   into the center giving divine perfect light
I am bad

I sat on the throne
   drinking nectar with allah
I got hot and sent an ice age to europe
   to cool my thirst
My oldest daughter is nefertiti
   the tears from my birth pains
   created the nile
I am a beautiful woman

I gazed on the forest and burned
   out the sahara desert
   with a packet of goat’s meat
   and a change of clothes
I crossed it in two hours
I am a gazelle so swift
   so swift you can’t catch me

   For a birthday present when he was three
I gave my son hannibal an elephant
   He gave me rome for mother’s day
My strength flows ever on

My son noah built new/ark and
I stood proudly at the helm
   as we sailed on a soft summer day
I turned myself into myself and was
   jesus
   men intone my loving name
   All praises All praises
I am the one who would save

I sowed diamonds in my back yard
My bowels deliver uranium
   the filings from my fingernails are
   semi-precious jewels
   On a trip north
I caught a cold and blew
My nose giving oil to the arab world
I am so hip even my errors are correct
I sailed west to reach east and had to round off
   the earth as I went
   The hair from my head thinned and gold was laid
   across three continents

I am so perfect so divine so ethereal so surreal
I cannot be comprehended
   except by my permission

I mean … I … can fly
   like a bird in the sky …
 

[Nikki Giovanni]
[20.10.2018]

O anjo impuro

Eis-me afinal em plena
suprema confidência
ante minha presença,
anjo impuro que eu amo.

Quanto estéril horror
urge se toco o corpo
que amava desde novo
pois seguro de amor.

Mas não sei me assombrar,
não sei me abandonar…
Ao Deus que não dá vida
peço pra não morrer.

[Pier Paolo Pasolini, trad. Maurício Santana Dias]
[16.10.2018]

Die Aufgabe

Chegar em casa um pouco mais
do que cansada e puxar ainda assim
e aos poucos o fio longo da mortalha
até fazer da noite sair enfim um dia
dentre todos os dias a morrer na praia

[Simone Brantes]
[26.09.2018]

One art

The art of losing isn’t hard to master; so many things seem filled with the intent to be lost that their loss is no disaster. Lose some...