quinta-feira, 20 de agosto de 2020

 

Não lembro que idade tinha quando fiquei sabendo o que era Antes
Mas Antes se tornou para mim a extensão do mundo tateável
Com as mãos alcançava meus pais, a poeira na escada
podia remexer as raízes da terra e esmagar
nelas frutas que não dariam descendência
O mundo era algo em torno dos vasos da varanda
Ouvia o latido na rua o canto e outro segredo
Com o sol já não podia me queimar
Não por não poder tocá-lo, mas porque me era proibido
pular da sombra nas infinitas horas de pico
Então remoía as ondas dentro do castelo de areia
Esbravejava o mar por minha conta
cada balde um arrecife plástico
Piscinas naturais em poliméricos sintéticos

Cantava na praia ou na varanda
Até que o mar me trouxe Antes
E Antes era mais que eu em tudo

Antes estava lá quando meus pais se conheceram
Quando os bichos da Terra se tornaram
outros bichos e as plantas se cravaram em certas pedras
ao imprimir, com seus contornos na terra, xilogravuras do tempo

Eu não podia ter nascido até então
Era preciso esperar tudo acabar
A juventude das avós o nascimento dos primos mais velhos
Os casamentos os divórcios os namoros
escondidos os dias coletados
por todas as fotografias
os filmes franceses
o campeonato pernambucano
a construção do prédio
entre o mar e a janela

Mas o mar era ainda antes
nele o corpo diacrônico afundava
dava lugar à imersão das horas

Eu poderia cantar o mar, mas o mar era mais alto
Não havia nele a linha que me separasse
de Antes
Evidentemente, a mesma que separaria Antes
de mim
O mar era a vertigem
A navegação que alcançava todo o tempo
A ressaca renovada a cada instante

Quando enfim Antes soltasse a minha mão
acordava pelo grito deveria
retornar à sombra
na hora exata

[Clarissa Xavier, aqui]

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