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sábado, 16 de janeiro de 2021

18 de abril de 2013

 Nous parlons en silence d'une jeunesse vieille.

— Jacques Brel

Faço hoje quarenta e um anos e estou sozinho na casa onde descobri o medo. A música ajuda, mas não salve — até porque nada salva. Nunca pensei vir a reafirmar, com esta idade, uma certeza tão antiga. Pois o medo foi, de facto, a minha primeira grande descoberta. Confundia-se com o corredor vazio, com a estrada de alcatrão que fazia estremecer a janela do meu quarto, entranhava as páginas lidas e relidas d'O Conde de Monte Cristo ou de Nossa Senhora de Paris.

*

Para me distrair, tento perceber o caminho, fazendo uma espécie de balanço. Talvez nem me devesse queixar. Com ou sem talento, fui ou sou tudo o que vagamente desejei: poeta, crítico, editor, barman, livreiro e tradutor. De um modo quase sempre bastante heterodoxo, é certo. E tive amigos, conheci de perto o amor. Também houve falsos amigos, traições, os piores enganos. Não me ficou, de tudo isso, rancor nem arrependimento; senti antes que um filtro, implacável, me veio trazer o seu auxílio.

*

Socorre-me hoje a companhia de Frank e de Jojo, testemunhas involuntárias dos meus anos selvagens. Mas o dia poderia resumir-se ao gelado de amêndoa que levei à minha mãe, ainda no hospital, e à tua imagem, sentada no banco mais triste da cidade e reflectida na janela do comboio das 21h48, que partiu irremediavelmente. Foi assim, póstumo e sem ti, que reencontrei o medo.


[Manuel de Freitas]

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

A Divisão do Frango (Ossos, plasticina, 2017)

 Alguns ficaram com as minhas partes
piores. Isto é como a divisão do frango
em família numerosa. Faltam coxas para todos.
Isto é como a aprendizagem da generosidade:
o peito ou o pescoço ou as asas. Lá em casa,
fazíamos de conta que preferíamos outra coisa
e dávamos as partes melhores aos irmãos.
Não sei o que isso dirá de mim e dos meus irmãos.
Sei que eu e os meus irmãos tivemos sempre
uns dos outros as partes melhores.
Parece-me justo e valioso. Parece-me informação
digna de CV ou de Wikipédia. Isto devia dar empregos.
Isto devia ser o primeiro dado de uma biografia:
“dava a parte melhor do frango aos seus irmãos”.

E depois apaixonamo-nos. Complica-se a divsião do frango
quando há coxas para todos: para dois.
Difícil haver tanta coxa. Difícil não ser preciso dividir.
Difícil ver cada vez menos os irmãos, que provariam à mesa
sermos nós ainda a criança generosa. E que se houvesse
menos frango ou mais gente, ofereceríamos a parte melhor.

Alguns ficaram com minhas partes piores.
Os que não amei, não gostavam de me ver comer frango.
Comiam ossos e deram cabo de mim. Ainda me telefonam.
Os que amei iam comigo à churrasqueira, pediam molho picante
à parte (sempre tive medo de perder o ar) e batatas fritas na hora.
Um dia, nunca mais me quiseram ver.

Apenas pelos meus irmãos soube dividir-me.
Apenas eles ficaram para lá da refeição.

Não quero com isto justificar-me. Entendo.
Parti bem o frango mas parti sempre mal.

Só que às vezes lamento ninguém ter esperado
que eu crescesse. É natural.
Em tempo de aviários, ninguém espera isso de um frango.

[Filipa Leal]

Mulher de Perfil com Máscara na Mão Direita

 Mulher a inventar o corpo, a boca
cheia de vestígios de pântano, de heras,
de lodo, de incomunicabilidade.
Mulher segurando a máscara,
preparando-se para o esconderijo,
para a fácil loucura de já não ser real.
Mulher de perfil, tão pendurada, tão sem olhos
frontais, provocando-se a própria obra que a inclui,
desmotivando-se de tudo o que não for matéria,
soltando-se de todos os que a vêem bem.
Mulher enchendo-se de bronze,
tapando-se com a escultura que ela faráde si mesma.

[Filipa Leal]

Vem à Quinta-Feira

 Vem à quinta-feira.

É quase fim-de-semana e podemos, talvez, beber uma cerveja
ao cair da tarde, enquanto planeamos a viagem a Paris. E se Paris
for muito caro - sei que isto não está fácil - podemos ir a
         Guimarães
assim a um concerto, que ouvir é a maneira mais pura de calar.

Vem à quinta-feira.

A seguir, temos ainda a sexta e talvez me esperes à porta do
          emprego,
e talvez fiques para sábado e domingo, e talvez o mundo pare
de acabar tão depressa.

Vem à quinta-feira.
Mas não venhas nesta, vem na próxima.
Nesta, tenho um compromisso que não posso adiar, é um
          compromisso
profissional - sabes que isto não está fácil - e talvez nos dê
       hipótese de irmos
a Paris ou a Guimarães. Vem na próxima, que eu preciso de
          tempo
para arranjar o cabelo, para arranjar o coração,
para elaborar a lista do que me falta fazer contigo.

Vem à quinta-feira e não te demores.
Enquanto te escrevo, já fui elaborando a lista
(sabes como gosto de pensar em tudo
ao mesmo tempo)
e afinal o que me falta fazer contigo
não é caro:
- viajar de autocaravana,
- dançar na Estrada Nacional,
- ver-te chorar.
Choras tão pouco. Ainda bem que estás contente.

Vem à quinta-feira.

Se não puder ir a Paris ou a Guimarães, não te preocupes.
Vem na mesma, que eu vou apanhando as canas-da-índia, as
         fiteiras,
eu vou recolhendo a plha e reunindo cordas e lona.
Já estive a aprender no Youtube como se faz uma cabana.
Vem na mesma, que eu vou procurando um lugar seguro.
Vem na mesma porque a cabana, como a casa, só funciona
          com amor
- ou, pelo menos, é o que diz o Youtube.

Temos ainda tanto para fazer.
Por isso, se algum dia voltares, meu amor, volta numa quinta.

[Filipa Leal]

A Recusa do Amor

Não temos uma arma apontada à cabeça,
dizias-me. Mas era impossível que não visses,
impossível. Eu ao teu lado com aquela dor
no pescoço, imóvel, cuidadosa, o cano frio
na minha testa, a vida a estoirar-me
a qualquer momento. Era impossível que não visses
o revólver que levava sempre comigo. Por isso dormia
virada para o outro lado, não era por me dar mais jeito
aquele lado, era por me dar mais jeito
não morrer quando nos víamos,
era para dormir contigo só mais esta vez,
sempre só mais esta vez,
sempre com o meu amor a virar-se de costas,
sempre com o teu amor apontado à cabeça.

[Filipa Leal]

Manual de Despedida para Mulheres Sensíveis

Ser digna na partida, na despedida, dizer adeus com jeito,
não chorar para não enfraquecer o emigrante,
mesmo que o emigrante seja o nosso irmão mais novo,
dobrar-lhe as camisas, limpar-lhe as sapatilhas
com um pano húmido, ajudá-lo a pesar a mala
que não pode levar mais de vinte quilos
(quanto pesará o coração dele? e o meu?),
três pares de sapatos, um jogo de lençóis, o corta-vento, oferecer-lhe a medalha que a Mãe usava sempre que partia
e que talvez não tenha usado quando partiu para sempre,
ter passado o dia à procura da medalha pela casa toda
(ninguém sai mais daqui sem a medalha, ninguém sai mais daqui),
pensar que a data escolhida para partir é a da morte da Mãe,
pensar que a Mãe não está comigo para lhe dobrar as camisas
e mesmo assim não chorar, nunca chorar,
mesmo que o Pai esteja a chorar, mesmo que estejam todos a chorar,
tomar umas merdas, se for preciso: uns calmantes, uns relaxantes,
uns antioxidantes para não chorar; andar a pé para não chorar,
apanhar sol para não chorar, jantar fora para não chorar, conhecer gente,
mas gente animada, pintar o cabelo e esconder as brancas,
que os grisalhos são mais chorões, dizer graças para não pôr também
os amigos a chorar, os amigos gostam é de nós a rir, ver séries cómicas
até cair, acordar mais cedo para lhe fazer torradas antes da viagem,
com manteiga, com doce de mirtilo, com tudo o que houver no frigorífico,
e não pensar que nunca mais seremos pequenos outra vez,
cheios de Mãe e de Pai no quarto ao lado,
cheios de emprego no quarto ao lado quando ainda existia Portugal.

É tanto o que se pede a um ser humano do século vinte e um.
Que morra de medo e de saudade no aeroporto Francisco Sá Carneiro.
Mas que não chore.

[Filipa Leal]

Às vezes entristece-me esta cama cheia de espaço
isto de não servir a ninguém
penso: mas que medida tenho eu
que nunca sou roupa para os outros

Diria que não é culpa minha
sei que faço a vida como as outras pessoas
perdida no horizonte de um entardecer canalha
vindo para casa sorrindo aos vizinhos
com um saco de fruta na mão

Penso: todos vêem que fui às compras,
que tenho o ar leve de quem parou no café espalhando perfume
dizendo o que está certo sobre este dia
sendo a mulher exacta do que é ser mulher
servindo o balcão a todo o comprimento
(e tudo pode mudar depois de uma bica)

Como é bom saber que por aqui todos estão vivos
ignorando a minha dificuldade em escolher maçãs

Entrego-me ao destino,
há muito que não conto contigo
E olho a fruta que não como, pernas nuas e mão no sexo


[Cláudia R. Sampaio]

 A loucura é o mais credível oráculo.
Acredito nas visões que aparecem sem
origem, na agressão clara dos sentidos,
transformando-os, tirando-os do lugar.
A loucura anuncia e rói, iluminando à
volta das flores.

Não tenho chão e vou longe quando
ando sobre lâminas,
inundando-me no rebentamento das
cabeças.

Por cima de mim há milhões de vozes,
há milhões de vozes por cima da minha
cabeça.
Embaixo estão os astros e as espingardas
e eu sentada em planície ao mesmo
tempo que tenho nojo.

Tenho o espaço cheio de artérias e
um êxtase que pula na boca.
Trago a cara cheia de rostos.
Na escuridão sinto a pele como se
fosse minha, há aqui saudade como
uma corrente de ar
há aqui vida como um animal deitando-se
sobre o amor em espinhos.

Amar o que imaginamos é absolutamente
devastador.
Como eu, ruminando futuro,
rondando falésias.

A solidão balança como os cegos,
embriagando-me de orifícios.
A solidão é a tua luz centrípeta
no acaso da vida,
é a casca no exterior do mundo,
o fim da raiva, sou eu louca iluminando
à volta das flores, sentada em planície.
Tendo nojo.

Há beleza nesta falta de tudo e nestes
três cabelos mortos.
Eu sou o alimento completo
e intenvo-me em fabulosa neblina
à procura de gente.
Espanto-me e surjo.

[Cláudia R. Sampaio]

também eu já pari novos planetas
tenho-os escondidos no ventre que ninguém vê,
nem eu
mas quando mergulho no mar
deixo sempre os olhos abertos e por vezes
vejo aforrecas cintilantes
que me mostram a língua,
libidinosas

só a mim é que a libido vem em alforreca
e o prazer é um choco que
me enche de tinta quando espasma

a gata à janela ri-se mais uma vez,
mas eu não
anda cara de cuspir em tudo, a minha
deixem-na estar
a minha cara é que sabe
a cara é à parte do corpo
a cara tem um manifesto em que
explica as expressões a usar
em cada ocasião
a cara às vezes comunica com
o resto do corpo e por exemplo, hoje
comunica com o meu pé que
está verde e roxo e chora pelas
sapatilhas de ballet

nunca fui uma grande bailarina
e nem sei o que alguma vez fui
agora sou apenas este corpo
sentado numa manta zebra
e com um cheiro a laranja que
não me sai dos dedos

tu também não me sais dos dedos
agarras-te à laranja e formas um pomar

um pomar feito de ti, quem diria
pensava que só servias para me lembrares
da pequenez das minhas palavras

um pomar. TU.

deleitemo-nos então em volta dos vários
pomares de TUS que por aí existem

e eu que nem uma laranja sou,
se fosse algo, seria apenas um figo seco
em embalagem fora de prazo,
a contemplar o verde cheio de planetas
e a sonhar com o dia de aterragem
mas os figos não aterram
deixam-se estar a ser figos eternamente
vivem a secar

VIVAM OS FIGOS SECOS
VIVA EU SENTADA NA MANTA DA ZEBRA

e cheiro os dedos mais uma vez
cinco pomares estrelados
édens feitos de TUS, feitos de eus,
feitos de nós,
feitos de zeros mais zeros mais zeros
infinitos zeros que arrancam as sílabas
que me arrancam as horas a que tinha de
fechar a janela por causa de um espasmo
solar
as horas a que tinha de fechar os livros
vão continuar abertos, sempre as
mesmas páginas amareladas com cheiro a vida
porque a vida é nos livros

cá fora há nada elevado ao extremo
apesar de não sabermos, mas desconfiamos

a ânsia expande-se de boca em boca
disfarçada de rotina
e eu cuspo em todos os que se dizem felizes
cuspo em TODOS ao infinito
infinitamente elevado ao cubo,
ao quadrado, ao infinito
não tenho vergonha!
a minha cara de hoje é snob

VIVAM OS SNOBS!

Tus, tus, tus, e já somos tambores.
Rufemo-nos então em
melodias compassadas

trrru tu tu
trrru tu tu
trrru tu tu

aí vem o rebanho disfarçado de gente
aí vem o mundo em todo o seu esplendor
clamoroso, ardente de sugar tus, tus, tus
de nos mandar para o Espaço
nós, nós, nós
de onde viemos todos

e tu, meu pomar meu tambor
meu figo único que nunca seca
vieste lamber-me os dedos
vieste premir o gatilho
e entre nós, para sempre,
a diferença

[Cláudia R. Sampaio]

“sonhava-se com árvores e com amores epífitos
desaguava-se em sombras de amianto
inventava rios, trombas, sexo
viagens de gôndola no cabelo da
vizinha da frente
que não reparava que eu
falava com as plantas dela
porque não tinha mais companhia
as plantas dela, eu
e os mosquitinhos a sugarmos a seiva
montados nas gôndolas
que cheiravam à cozinha dela
à velhice dela

andava-se com a vida ao pescoço
de tão contentes
inchava-se urticária
ninguem trazia guilhotinas, só fé
ninguém pensava que ser triste era triste
ninguém pensava que viver era estar vivo
a minha avó via-me caídeira de ribanceiras,
sobrevivente a dois pneus de bicicleta
atropelada de ideias,
veneradora de avó e árvores

andava-se com qualquer um às costas
andava-se de trombas e não fazia mal
andava-se na berlinda e no ballet
quando fazia a espargata e
punha o pé junto ao pescoço
tudo parecia menos ridículo
andava-se na rua a sorrir pliés
corria-se à volta de um arbusto
desfaziamo-nos em sissones
e vomitava-se a vida depois do almoço

vomitava-se e era bom

saía-se da cama a gritar “Aleluia”
o corpo em ingestões atmosféricas de amores
os calcanhares no focinho,
a cabeça vendada
saía-se da cama a gritar “dói-me os cornos”
mas nada disso fazia mal
porque se os cornos doem, um dia param de doer
assim como as costas, a alma
e as inevitáveis injúrias

e sugava a seiva do cimento do
prédio dos Olivais, só de tijolo
sem pintura
sem porta
sem campainhas
decapitado

decapitavam-se as coisas e não fazia mal
as coisas decapitadas vivem por elas próprias
não têm cornos que lhe doam
metia-se os cornos e não fazia mal
porque tudo era decapitado

saía-se da cama com uma perna a menos
ou um braço
ou um pai a menos
e mais vale um pai num prédio só de tijolo
do que dois a voar

mas os meus pais voaram todos.

 

[Cláudia R. Sampaio]

Aula de Arqueologia

 não, ela era bem como tu
como mais ninguém foi depois ou é ou virá a ser
e tu procuras ainda a última cara
a promessa do encaixe da mão no perfil
e isso acabou há tantos anos
foi antes mesmo desta cidade
um facto para ser coberto
por ruínas e areias e novas construções e desenterrado
quando alguém voltar para tactear
entre as omoplatas e a cavidade torácica
o que agora está descomposto
e foi esta coisa viva:
o corpo que tu usaste

escavado com o cuidado de pincéis que afastam o pó
quando os arqueólogos desta equipa puderem decidir
que o que em ti esteve vivo é apenas este golpe de teatro
uma coisa para ser guardada numa caixa insignificante
num museu qualquer um corpo são certos indícios
não um objecto estranho ou uma cidade
a que voltaste muitas vezes
ou outra cópia desse livro que amaste e que era
a única coisa a declarar num trânsito mortal
a um qualquer funcionário cansado
de um serviço de estrangeiros e fronteiras

um livro vermelho num dia de festa
demasiada alegria na mesma de um qualquer café
numa terra demasiado pequena para estranhos
como nós não serem olhados como estrangeiros
e o que em ti esteve vivo muito menos
do que esta atmosfera lunar
o último gesto do último dos teus começos

ela era como tu e no entanto deitou-se contigo
muito depois das estações terminais
um inverno tão completo como um naufrágio
tu falaste do calor da tua cidade até à mitologia
florença acesa de guelfos e gibelinos
brancos e negros a tua violência é tanto como a deles
uma vontade cega sem inteligência sem civilização
atacar primeiro antes que te ataquem a ti
uma destas noites a caminho de casa
ao atravessar qualquer uma das pontes
trespassa-te um amor que não esperaste chegado
muito antes da ternura e do desprezo e reparas
como o frio por estas paragens enlouquece as pessoas

e tudo o que agora se vai partir
foram os teus arranjos o teu cuidado com os cacos
diz-lhes adeus enquanto ainda há música
e tu ainda não despiste as asas
não limpaste da cara o pó-de-arroz
e o amor que carregas contigo
não é ainda doente como oum longo cuidado
indigno de aparatos e sem conserto
porque para isto nunca nada esteve pronto

de manhã na espreiteza da passagem
quando tudo for inadiavelmente mais claro
e as lanternas de papel humilhadas de chuva
balançarem nos ramos como um passado
tudo factos que permanecerão desconhecidos
por exemplo: só o tropeço existe de verdade
e isso é porque insistes desde sempre
em usar sapatilhas um tamanho acima
e o dono do bar é um homem envelhecido
que rola as pipas para o mundo subterrâneo da cave
por um alçapão aberto no pavimento
como um encenador prepara a sua cena
sozinho na manhã que rompe em laranja e negro
ambos privados de profecia
apenas tu testemunha e ele testemunhado

e qualquer magia fica com o empregado que o ajuda
o seu trabalho pesado e difícil de besta de carga
a solidão solene dos dois no gelo desta manhã
por algumas moedas e guarida
este rapaz com os braços apoiados na superfício do chão
as pernas a desaparecerem escada abaixo
thomas bernhard empregado de loja
uma infância entre pontes, montanhas, nazis
um pai que nunca chegou, que teve de ser procurado
à espera da próxima carga de braços abertos
num peito que a partir daqui
não vai poder encher-se de ar que chegue
mas por enquanto naufragado num charco
de cerveja escura e espessa
e com a cor e o cheiro do mel
entre o chão e o subterrâneo

tu pensas é ainda tão cedo
e quando anoitecer e tu caminhares
na escuridão da rua para a tua casa apagada
nestes quarteirões carregados de neve
onde cada vez menos dos teus amigos se riem
e onde se acendem os últimos trompetes
e faz tanto frio que o metal da chave se contrai
e não podes sequer abrir a porta da tua morada
lembra-te que não foi esta noite nem este quarto
e aí onde estás desamparado como ficaste
não compres este momento por menos
não te apanhes a dizer
não foi isto o combinado

[Tatiana Faia]

Repara na lentidão do adeus

 A palavra navegar não navega
e mesmo assim o verso quer-se mar
e mesmo assim o poeta escreve colete
como se a palavra o salvasse
como se cada fosse cada vez
mais simples nas suas arestas
como se cada fosse realmente
a esquina que dobramos nesse adeus
tão lento, lentíssimo ainda a acenar
e o poeta tão chegado
e mesmo assim

Repara na suspensão do adeus

[Filipa Leal]

Arte poética II

 A poesia não me pede propriamente uma especialização pois sua arte é uma arte do ser. Também não é tempo ou trabalho o que a poesia me pede. Nem me pede uma ciência nem uma estética nem uma teoria. Pede-me antes a inteireza do meu ser, uma consciência mais funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que eu posso controlar. Pede-me uma instransigência sem lacuna. Pede-me que arranque da minha vida que se quebra, gasta, corrompe e dilui uma túnica sem costura. Pede-me que viva atenta como uma antena, pede-me que viva sempre, que nunca me esqueça. Pede-me uma obstinação sem tréguas, densa e compacta.

Pois a poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso o poema não fala de uma vida ideal mas sim de uma vida concreta: ângulo da janela, ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, respiração da noite, perfume da tília e do orégão.

É esta relação com o universo que define o poema como poema, como obra de criação poética. Quando há apenas relação com uma matéria há apenas artesanato.

É o artesanato que pede especialização, ciência, trabalho, tempo e uma estética. Todo o poeta, todo o artista é artesão de uma linguagem. Mas o artesanato das artes poéticas não nasce de si mesmo, isto é, da relação com uma matéria, como nas artes artesanais. O artesanato das artes poéticas nasce da própria poesia à qual está consubstancialmente unido. Se um poeta diz “obscuro”, “amplo”, “barco”, “pedra” é porque estas palavras nomeiam a sua visão do mundo, a sua ligação com as coisas. Não foram palavras escolhidas esteticamente pela sua beleza, foram escolhidas pela sua realidade, pela sua necessidade, pelo seu poder poético de estabelecer uma aliança. E é da obstinação sem tréguas que a poesia exige que nasce o “obstinado rigor” do poema. O verso é denso, tenso como um arco, exactamente dito, porque os dias foram densos, tensos como arcos, exactamente vividos. O equilíbrio das palavras entre si é o equilíbrio dos momentos entre si.

E no quadro sensível do poema vejo para onde vou, reconheço o meu caminho, o meu reino, a minha vida.

[Sophia de Mello Breyner Andresen]

No Golfo de Corinto

No Golfo de Corinto
a respiração dos deuses é visível:
é um arco um halo uma nuvem
em redor das montanhas e das ilhas
como um céu mais intenso e deslumbrado

E também o cheiro dos deuses invade as estradas
é um cheiro a resina a mel e fruta
onde se desenham grandes corpos lisos e brilhantes
sem dor sem suor sem pranto
sem a menor ruga de tempo

E uma luz cor de amora no poente se espalha
é o sangue dos deuses imortal e secreto
que se une ao nosso sangue e com ele batalha

[Sophia de Mello Breyner Andresen]

Ressurgiremos

Ressurgiremos ainda sob os muros de Cnossos
E em Delphos centro do mundo
Ressurgiremos ainda na dura luz de Creta

Ressurgiremos ali onde as palavras
São o nome das coisas
E onde são claros e vivos os contornos
Na aguda luz de Creta

Ressurgiremos ali onde pedra estrela e tempo
São o reino do homem
Ressurgiremos para olhar para a terra de frente
Na luz limpa de Creta

Pois convém tornar claro o coração do homem
E erguer a negra exactidão da cruz
Na luz branca de Creta

[Sophia de Mello Breyner Andresen]

Marinheiro sem mar

Longe o marinheiro tem
Uma serena praia de mãos puras
Mas perdido caminha nas obscuras
Ruas da cidade sem piedade

Todas as cidades são navios
Carregados de cães uivando à lua
Carregados de anões e mortos frios

E ele vai baloiçando como um mastro
Aos seus ombros apoiam-se as esquinas
Vai sem aves nem ondas repentinas
Somente sombras nadam no seu rastro.

Nas confusas redes do seu pensamento
Prendem-se obscuras medusas
Morta cai a noite com o vento

E sobe por escadas escondidas
E vira por ruas sem nome
Pela própria escuridão conduzido
Com pupilas transparentes e de vidro

Vai nos contínuos corredores
Onde os polvos da sombra o estrangulam
E as luzes como peixes voadores
O alucinam.

Porque ele tem um navio mas sem mastros
Porque o mar secou
Porque o destino apagou
O seu nome dos astros
Porque o seu caminho foi perdido
O seu triunfo vendido
E ele tem as mãos pesadas de desastres

E é em vão que ele se ergue entre os sinais
Buscando a luz da madrugada pura
Chamando pelo vento que há nos cais

Nenhum mar lavará o nojo do seu rosto
As imagens são eternas e precisas
Em vão chamará pelo vento
Que a direito corre pelas praias lisas

Ele morrerá sem mar e sem navios
Sem rumo distante e sem mastros esguios
Morrerá entre paredes cinzentas
Pedaços de braços e restos de cabeças
Boiarão na penumbra das madrugadas lentas
                             *
E ao Norte e ao Sul
E ao Leste e ao Poente
Os quatro cavalos do vento
Sacodem as suas crinas

E o espírito do mar pergunta:
“Que é feito daquele
Para quem eu guardava um reino puro
De espaço e de vazio
De ondas brancas e fundas
E de verde frio?”

Ele não dormirá na areia lisa
Entre medusas, conchas e corais

Ele dormirá na podridão
E ao Norte e ao Sul
E ao Leste e ao Poente
Os quatro cavalos do vento
Exactos e transparentes
O esquecerão

Porque ele se perdeu do que era eterno
E separou o seu corpo da unidade
E se entregou ao tempo dividido
Das ruas sem piedade.

[Sophia de Mello Breyner Andresen]

domingo, 16 de agosto de 2020

De Pedra e Cal

De pedra e cal é a cidade
Com campanários brancos
De pedra e cal é a cidade
Com algumas figueiras.

De pedra e cal são
Os labirintos brancos
E a brancura do sal
Sobe pelas escadas.

De pedra e cal a cidade
Toda quadriculada
Como um xadrez jogado
Só com pedras brancas.

Um xadrez só de torres
E cavalos-marinhos
Que sacodem as crinas
Sob os olhos das moiras

Caminha devagar
Porque o chão é caiado.

[Sophia de Mello Breyner Andresen]
[21.02.2018]

O sol é grande

O sol é grande, caem co’a calma as aves,
do tempo em tal sazão, que sói ser fria;
esta água que d’alto cai acordar-m’-ia
do sono não, mas de cuidados graves.
Ó cousas, todas vãs, todas mudaves,
qual é tal coração qu’em vós confia?
Passam os tempos vai dia trás dia,
incertos muito mais que ao vento as naves.

Eu vira já aqui sombras, vira flores,
vi tantas águas, vi tanta verdura,
as aves todas cantavam d’amores.

Tudo é seco e mudo; e, de mestura,
também mudando-m’eu fiz doutras cores:
e tudo o mais renova, isto é sem cura!

[Sá de Miranda]
[13.12.2017]

Golpe de 7 graus

 Há aquele poema que fala de renas
e do filho gigantesco
que nos atravessa as cabeças geladas
Fala de uma astrolírica saudade
que levanta a nave até ao nome
Mas olha esse nome nem é meu
porque ao meu nome lhe falta uma letra
É uma poema mais ou menos de exílio
mais ou menos não
Não sei se fala do amor por alguém
e isso não me importa nem um pouco
O amor desenhado à luz das flores velhas
não me interessa mais
Não agora, não depois disto
Esta manhã a persiana do meu quarto
partiu ao meio
não deu para ver o mar da varanda
Uma porta entreaberta
não deixa ver o real
Esta manhã não sei se existiram os melros
depenicando a relva do vizinho
Não sei se vieram os cavalos
para estrumar a terra úmida
de quase dezembro
Não sei se vieram as ruas
da cidade onde já morei
Sim as ruas estiveram neste quarto
isso é mais que certo
Mas eu não sei se vieram antes
ou depois do princípio da manhã
Hoje durante o sono
eu passeava na cidade sem renas
Passeava na avenida onde uma vez
um colibri se embrenhou em minha testa
na época pensei que era o sinal do amor
Fui a ver e não era sinal de nada
era só a simpatia do passarinho
e isso foi mais que suficiente
Hoje durante o sono
eu passeava na cidade
ondeo filho até já pariu irmãos
onde Carlos me ofereceu três papéis de Zbigniew
onde o cachorro andava meio adoentado
e onde precisei fazer de spiderman
para fugir ao feitiço da umbanda
Hoje durante os ono
eu me perdi nas sete estradas
ao volante de um opel vectra
Mas rapidamente me achei
porque casa da gente a gente acha
Depois acordei
para o poema
Para o urro doloroso
da palavra Fidelidade
Para o contorno trêmulo
da letra que me falta
Para o país do azevinho
e da excitação coletiva
costurada a verde e a vermelho
Para o tom neutro do cansaço
que acontece principalmente aos domingos
quando a rena ainda não se transformou em cervo
Quando o bicho ainda não veio
comer das folhas de minhas mãos
Nem soprar meu bafo quente
para formar as folhas
que devem crescer-me nos pulmões
Acordei para o som do rádio
que não tocava triste nem fútil
não falava da morte nem dos caretos
Que só acertava os pontos
com o planeta
repetindo aquela frase
que sempre vem exatamente antes
da frase que diz
It’s lonely out in space.
Saudade, astrolírica saudade
teu nome perdeu o agá.

[Matilde Campilho, em Jóquei]
[10.12.2017]

We’ve changed, honey boo

 Como estava previsto nos registos, agora você é muito mais dada à astrologia e eu ao estudo dos cafés servidos nas beiras de estrada. A polícia não nos procura mais. O tribunal dos seiscentos dias resolveu que a misturada que fizemos com os nomes dos pássaros já não é uma questão para a segurança interna. Mensagens encriptadas na bula dos medicamentos, aromas desleais enfiados à socapa nos pacotinhos de sorvete, assobios nos ouvidos do sinaleiro – tudo parou. Quase nos prendiam por tráfico de influências, mas agora as urbanizações andam muito sossegadas. Daniel, entretanto, está morto. Walter emudeceu no caminho da composição e os jornais usam datas estranhas em seus cabeçalhos. Junto àquelas figuras de aviões e homens fardados aparece o nome do décimo sexto mês. Mudou tudo, honey, e a distância entre nós não foi certamente a causa para toda a explosão. Existem mais de 39 marcas diferentes de café, isso sem contar as misturas solúveis. As professoras de Westbridge preferem-no forte. Os astronautas fora de missão bebem cafezinho claro, não vá acontecer uma emergência qualquer – quem entende de gravidade está muito consciente da ligação entre leveza e sono. Antes do horóscopo e dos mapas você prestava alguma atenção ao despertar do soldado. Acho que tinha qualquer coisa a ver com luz ou com melancolia, tinha certamente tudo a ver com crença. Quero dizer, tu trabalhavas na tipografia e eu ainda guardo a revista onde plantaste o retrato do barcalhão fazendo a vênia à alvorada. Falávamos muito de príncipes nessa época, e os príncipes pertencem às manhãs. Cada motel serve um café diferente, raios. Distingo os ares da China do vento do Cazaquistão num minuto. We’ve changed, honey boo, mas os climogramas permanecem.

[Matilde Campilho, em Jóquei]
[07.12.2017]

One art

The art of losing isn’t hard to master; so many things seem filled with the intent to be lost that their loss is no disaster. Lose some...