Hoje penso em dois dos muitos mortos afogados
a poucos metros dessas costas ensolaradas
achados sob o casco, apertados, abraçados.
Indago se nos ossos crescerá o coral
e o que será do sangue dentro do sal,
então estudo – procuro nos velhos livros
de medicina legal de meu pai –
um manual onde as vítimas
são fotografadas junto com criminosos
em desordem: suicidas, assassinos, órgãos genitais
Nada de paisagem só o céu de aço das fotos,
raramente uma cadeira um torso coberto por um lençol,
os pés em cima de uma maca, nus.
Leio. Descubro que o termo exato é livor mortis.
O sangue se acumula em baixo e coagula
antes rubro depois roxo, enfim, se torna pó
e poe, sim, dissolver no sal.
[Antonella Anedda]
[09.06.2018]
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