Mostrando postagens com marcador cláudia r. sampaio. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador cláudia r. sampaio. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Às vezes entristece-me esta cama cheia de espaço
isto de não servir a ninguém
penso: mas que medida tenho eu
que nunca sou roupa para os outros

Diria que não é culpa minha
sei que faço a vida como as outras pessoas
perdida no horizonte de um entardecer canalha
vindo para casa sorrindo aos vizinhos
com um saco de fruta na mão

Penso: todos vêem que fui às compras,
que tenho o ar leve de quem parou no café espalhando perfume
dizendo o que está certo sobre este dia
sendo a mulher exacta do que é ser mulher
servindo o balcão a todo o comprimento
(e tudo pode mudar depois de uma bica)

Como é bom saber que por aqui todos estão vivos
ignorando a minha dificuldade em escolher maçãs

Entrego-me ao destino,
há muito que não conto contigo
E olho a fruta que não como, pernas nuas e mão no sexo


[Cláudia R. Sampaio]

 A loucura é o mais credível oráculo.
Acredito nas visões que aparecem sem
origem, na agressão clara dos sentidos,
transformando-os, tirando-os do lugar.
A loucura anuncia e rói, iluminando à
volta das flores.

Não tenho chão e vou longe quando
ando sobre lâminas,
inundando-me no rebentamento das
cabeças.

Por cima de mim há milhões de vozes,
há milhões de vozes por cima da minha
cabeça.
Embaixo estão os astros e as espingardas
e eu sentada em planície ao mesmo
tempo que tenho nojo.

Tenho o espaço cheio de artérias e
um êxtase que pula na boca.
Trago a cara cheia de rostos.
Na escuridão sinto a pele como se
fosse minha, há aqui saudade como
uma corrente de ar
há aqui vida como um animal deitando-se
sobre o amor em espinhos.

Amar o que imaginamos é absolutamente
devastador.
Como eu, ruminando futuro,
rondando falésias.

A solidão balança como os cegos,
embriagando-me de orifícios.
A solidão é a tua luz centrípeta
no acaso da vida,
é a casca no exterior do mundo,
o fim da raiva, sou eu louca iluminando
à volta das flores, sentada em planície.
Tendo nojo.

Há beleza nesta falta de tudo e nestes
três cabelos mortos.
Eu sou o alimento completo
e intenvo-me em fabulosa neblina
à procura de gente.
Espanto-me e surjo.

[Cláudia R. Sampaio]

também eu já pari novos planetas
tenho-os escondidos no ventre que ninguém vê,
nem eu
mas quando mergulho no mar
deixo sempre os olhos abertos e por vezes
vejo aforrecas cintilantes
que me mostram a língua,
libidinosas

só a mim é que a libido vem em alforreca
e o prazer é um choco que
me enche de tinta quando espasma

a gata à janela ri-se mais uma vez,
mas eu não
anda cara de cuspir em tudo, a minha
deixem-na estar
a minha cara é que sabe
a cara é à parte do corpo
a cara tem um manifesto em que
explica as expressões a usar
em cada ocasião
a cara às vezes comunica com
o resto do corpo e por exemplo, hoje
comunica com o meu pé que
está verde e roxo e chora pelas
sapatilhas de ballet

nunca fui uma grande bailarina
e nem sei o que alguma vez fui
agora sou apenas este corpo
sentado numa manta zebra
e com um cheiro a laranja que
não me sai dos dedos

tu também não me sais dos dedos
agarras-te à laranja e formas um pomar

um pomar feito de ti, quem diria
pensava que só servias para me lembrares
da pequenez das minhas palavras

um pomar. TU.

deleitemo-nos então em volta dos vários
pomares de TUS que por aí existem

e eu que nem uma laranja sou,
se fosse algo, seria apenas um figo seco
em embalagem fora de prazo,
a contemplar o verde cheio de planetas
e a sonhar com o dia de aterragem
mas os figos não aterram
deixam-se estar a ser figos eternamente
vivem a secar

VIVAM OS FIGOS SECOS
VIVA EU SENTADA NA MANTA DA ZEBRA

e cheiro os dedos mais uma vez
cinco pomares estrelados
édens feitos de TUS, feitos de eus,
feitos de nós,
feitos de zeros mais zeros mais zeros
infinitos zeros que arrancam as sílabas
que me arrancam as horas a que tinha de
fechar a janela por causa de um espasmo
solar
as horas a que tinha de fechar os livros
vão continuar abertos, sempre as
mesmas páginas amareladas com cheiro a vida
porque a vida é nos livros

cá fora há nada elevado ao extremo
apesar de não sabermos, mas desconfiamos

a ânsia expande-se de boca em boca
disfarçada de rotina
e eu cuspo em todos os que se dizem felizes
cuspo em TODOS ao infinito
infinitamente elevado ao cubo,
ao quadrado, ao infinito
não tenho vergonha!
a minha cara de hoje é snob

VIVAM OS SNOBS!

Tus, tus, tus, e já somos tambores.
Rufemo-nos então em
melodias compassadas

trrru tu tu
trrru tu tu
trrru tu tu

aí vem o rebanho disfarçado de gente
aí vem o mundo em todo o seu esplendor
clamoroso, ardente de sugar tus, tus, tus
de nos mandar para o Espaço
nós, nós, nós
de onde viemos todos

e tu, meu pomar meu tambor
meu figo único que nunca seca
vieste lamber-me os dedos
vieste premir o gatilho
e entre nós, para sempre,
a diferença

[Cláudia R. Sampaio]

“sonhava-se com árvores e com amores epífitos
desaguava-se em sombras de amianto
inventava rios, trombas, sexo
viagens de gôndola no cabelo da
vizinha da frente
que não reparava que eu
falava com as plantas dela
porque não tinha mais companhia
as plantas dela, eu
e os mosquitinhos a sugarmos a seiva
montados nas gôndolas
que cheiravam à cozinha dela
à velhice dela

andava-se com a vida ao pescoço
de tão contentes
inchava-se urticária
ninguem trazia guilhotinas, só fé
ninguém pensava que ser triste era triste
ninguém pensava que viver era estar vivo
a minha avó via-me caídeira de ribanceiras,
sobrevivente a dois pneus de bicicleta
atropelada de ideias,
veneradora de avó e árvores

andava-se com qualquer um às costas
andava-se de trombas e não fazia mal
andava-se na berlinda e no ballet
quando fazia a espargata e
punha o pé junto ao pescoço
tudo parecia menos ridículo
andava-se na rua a sorrir pliés
corria-se à volta de um arbusto
desfaziamo-nos em sissones
e vomitava-se a vida depois do almoço

vomitava-se e era bom

saía-se da cama a gritar “Aleluia”
o corpo em ingestões atmosféricas de amores
os calcanhares no focinho,
a cabeça vendada
saía-se da cama a gritar “dói-me os cornos”
mas nada disso fazia mal
porque se os cornos doem, um dia param de doer
assim como as costas, a alma
e as inevitáveis injúrias

e sugava a seiva do cimento do
prédio dos Olivais, só de tijolo
sem pintura
sem porta
sem campainhas
decapitado

decapitavam-se as coisas e não fazia mal
as coisas decapitadas vivem por elas próprias
não têm cornos que lhe doam
metia-se os cornos e não fazia mal
porque tudo era decapitado

saía-se da cama com uma perna a menos
ou um braço
ou um pai a menos
e mais vale um pai num prédio só de tijolo
do que dois a voar

mas os meus pais voaram todos.

 

[Cláudia R. Sampaio]

One art

The art of losing isn’t hard to master; so many things seem filled with the intent to be lost that their loss is no disaster. Lose some...