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domingo, 16 de agosto de 2020

Não Leitura

Para a obra de Proust
a livraria não fornece controle remoto,
não dá para mudar
para uma partida de futebol
ou um teleconcurso em que o prêmio é um volvo.
Vivemos mais,
mas com menos exatidão
e com frases mais curtas.

Viajamos mais, mais rápido, mais longe,
mas em vez de memórias trazemos slides.
Aqui eu com um cara.
Ali acho que o meu ex.
Aqui todo mundo pelado,
então deve ser uma praia.

Sete volumes - misericórdia.
Não dava para resumir, encurtar
ou, melhor ainda, colocar em imagens.
Tinha um seriado chamado “Lalka”,
mas minha cunhada diz que era de outro com P.

E afinal de contas esse quem era.
Parece que escrevia na cama por anos a fio.
Folha por folha,
em velocidade reduzida.
Já nós em quinta marcha
e - bate na madeira - saudáveis.
 

[Wisława Szymborska, trad. Regina Przbycien]
[02.06.2018]

Pode ser sem título

 Aconteceu de eu estar sentada sob uma árvore
na beira do rio,
numa manhã ensolarada.
É um acontecimento insignificante
e não entrará para a história.
Não é caso de batalhas e pactos,
cujas causas se pesquisam,
nem de tiranicídios dignos de memória.

E entretanto estou à beira do rio, é um fato.
E já que estou aqui
devo ter vindo de algum lugar,
e antes disso
devo ter aparecido em muitos outros,
exatamente como os conquistadores de terras
antes de subirem a bordo.

Mesmo o instante fugaz tem um passado fecundo,
sua sexta-feira antes do sábado,
seu maio antes de junho.
Tem seu horizonte não menos real
que no binóculo dos comandantes.

Esta árvore é um álamo enraizado há anos.
O rio é o Raba e não é de hoje que corre.
O caminho pelo mato
não é de anteontem que foi pisado.
O vento para dissipar as nuvens,
precisou antes trazê-las aqui.

E embora ao redor nada de grandioso aconteça,
o mundo não fica mais pobre em detalhes por isso,
menos justificado ou definido
do que quando o conquistaram as migrações de povos.

O silêncio não acompanha só as conspirações secretas.
Nem o cortejo de causas, só as coroações.
Podem ser redondos não só os aniversários de insurreições,
mas também os seixos que rolam na margem.

É denso e intrincado o bordado das circunstâncias.
O ponto da formiga na grama.
A grama costurada à terra.
O desenho da onda que um pausinho transpassa.

Aconteceu de eu estar e observar.
Acima de mim uma borboleta branca tremula no ar
as asas que só pertencem a ela
e passa sobre minhas mãos uma sombra,
não outra, não de outra qualquer, mas dela somente.

Diante de tal vista sempre me abandona a certeza
de que o importante
é mais importante do que o desimportante.

[Wisława Szymborska, trad. Regina Przybycien]
[15.05.2018]

Decapitação


Decote vem de decollo,
decollo significa cortar o pescoço.
A rainha da Escócia Maria Stuart
chegou ao patíbulo numa veste apropriada,
a veste era decotada
e vermelha como uma hemorragia.

No mesmo momento
num quarto apartado
Elizabeth Tudor, rainha da Inglaterra,
estava à janela num vestido branco.
O vestido vitoriosamente abotoado até o queixo
terminando num rufo engomado.

Pensavam em coro:
“Deus, tende piedade de mim”
“A razão está comigo”
“Viver é atrapalhar”
“Em certas situações a coruja é filha do padeiro”
“Isso nunca vai acabar”
“Isso já acabou”
“O que faço aqui, não tem nada aqui”.

A diferença no traje - sim, dessa tenhamos certeza.
O detalhe
é inabalável.

[Wisława Szymborska]
[19.04.2018]

 Estou perto demais para ele sonhar comigo
Não pairo sobre ele, não fujo dele
sob as raízes das árvores. Estou perto demais.
Não é com a minha voz que o peixe canta na rede.
Não é do meu dedo que rola o anel.
Estou perto demais. A casa enorme queima
sem que eu grite por socorro. Perto demais
para que no meu cabelo soe um sino.
Perto demais para que possa entrar como hóspede
diante de quem as paredes se abrem.
Nunca de novo morrerei tão leve,
tão além do corpo, tão inconsciente
como outrora no seu sonho. Estou perto demais,
perto demais. Ouço um sibilo
e vejo a escama brilhante dessa palavra
imobilizada no abraço. Ele dorme,
mais acessível neste instante à caixa do circo
itinerante com um leão, que viu uma única vez,
do que a mim deitada a seu lado.
Para ela cresce nele agora um vale
de folhas rubras, fechado por um monte nevado
no ar azul. Estou perto demais
para lhe cair do céu. Meu grito
só poderia acordá-lo. Pobre de mim,
limitada à minha própria forma,
eu que fui bétula, que fui lagartixa,
e largava os anos e panos
cambiando as cores das peles. E tinha
o dom de desaparecer ante olhos espantados,
riqueza das riquezas. Estou perto demais,
perto demais para ele sonhar comigo.
Retiro de sob sua cabeça adormecida
meu braço dormente, um enxame de alfinetes.
No topo de cada um deles, para serem contados,
assentaram-se anjos caídos.

[Wisława Szymborska]

[06.04.2018]

Noite

 Deus disse: toma teu filho, teu único filho,
a quem tanto amas, Isaac, e vai à terra de Moriá,
onde tu o oferecerás em holocausto sobre um dos montes
que eu te indicar.

Mas o que foi que Isaac fez?
seu padre me diga.
Quebrou a vidraça do vizinho?
Rasgou a calça nova que usava
quando pulou a cerca de ripa?
Roubou um lápis?
Enxotou as galinhas?
Colou na prova?

Os adultos que durmam
um sono tolo assim,
esta noite
eu preciso vigiar até a aurora.
A noite se cala,
mas se cala contra mim,
escura
como o fervor de Abraão.

Onde vou me esconder,
quando em mim pousar
o olhar bíblico de Deus
como pousou em Isaac?

Antigos feitos se quiser
Deus pode ressuscitar.
Por isso a gelada de medo
cubro a cabeça com o cobertor.

Algo logo vai
embranquecer diante da janela,
encher o quarto com o zumbido
de um pássaro ou do vento.
Mas não há nenhum pássaro
de asas grandes como aquelas,
e nem vento
de camisa assim tão longa.

Deus vai fingir
que voou para dentro por acaso,
que não era para estar realmente ali,
e depois vai levar meu pai
para a cozinha confabular sobre o caso
e com uma grande trombeta lhe soprar ao ouvido.

E quando amanhã bem cedo
meu pai pela estrada me levar,
vou, vou,
enegrecida de ódio.
Em nenhum amor, nenhuma bondade,
vou acreditar,
mais indefesa
do que as folhas de novembro.
Nem confiar,
de nada vale a confiança.

Nem amar,
carregar um coração vivo no peito.
Quando acontecer o que tem que acontecer,
quando acontecer,
vai me bater um fungo seco
em vez do coração.

Deus espera
e da sacada das nuvens espia
para ver se alta e bela
queima a fogueira
e verá como
se morre de teimosia,
porque vou morrer,
não vou deixar que me salve!

Desde aquela noite
além dos limites de um sono malsão,
desde aquela noite
além dos limites da solidão,
Deus começou
pouco a pouco
devagarinho
a mudança
do literal
para o metafórico.

[Wisława Szymborska]
[06.03.2018]

Desatenção

Ontem me comportei mal no universo.
Vivi o dia inteiro sem indagar nada,
sem estranhar nada.

Executei as tarefas diárias
como se isso fosse tudo o que devia fazer.

Inspirar, expirar, um passo, outro passo, obrigações,
mas sem um pensamento que fosse
além de sair de casa e voltar para casa.

O mundo podia ter sido percebido como um mundo louco,
e eu o tomei somente para uso habitual.

Nenhum - como - e por quê -
e como foi que aqui apareceu -
e de que lhe servem tantas minúcias buliçosas.

Fiquei como um prego mal pregado na parede
ou
(aqui uma comparação que me faltou).

Uma depois da outra ocorreram mudanças
mesmo no estrito espaço de um pestanejar.

Sobre uma mesma mais nova, por mão um dia mais nova,
o pão de ontem foi cortado de um modo diferente.

Nuvens como nunca, uma chuva como nunca,
pois caíram gotas diferentes.

A Terra girou em torno de seu eixo,
mas num espaço já abandonado para sempre.

Isso durou umas boas 24 horas.
1440 minutos de chances.
86400 segundos para intuições.

O savoir-vivre cósmico,
embora se cale sobre nós,
ainda assim nos exige algo:
alguma atenção, umas frases de Pascal
e uma participação perplexa nesse jogo
de regras desconhecidas.

 

[Wisława Szymborska, trad. Regina Przybycien]
[18.08.2017]

One art

The art of losing isn’t hard to master; so many things seem filled with the intent to be lost that their loss is no disaster. Lose some...