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quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Dedication

 The mountains bend before this grief,
the great river does not flow,
but the prison locks are strong
and behind them the convicts’ holes
and a deathly sadness.
For someone the fresh wind blows,
for someone the sunset basks…
We don’t know, we are the same everywhere;
we only hear the repellent clank of keys,
the heavy steps of the soldiers.
We rose as though to early mass,
and went through the savage capital,
and we used to meet there, more lifeless than the dead,
the sun lower, the Neva mistier,
but in the distance hope still sings.
Condemned… Immediately the tears start,
one woman, already isolated from everyone else,
as though her life had been wrenched from her heart,
as though she had been smashed flat on ther back
still, she walks on… staggers… alone…
Where now are the chance friends
of my two hellish years?
What do they see in the Siberian blizzard,
what comes to them in the moon’s circle?
I sen them my farewell greeting.

[Anna Akhmatova, 1940, trad. Richard McKane]

 Memories have three epochs.
And the first is like yesterday.
The soul is under their blessed vault,
and the body is in the bliss of their shadow.
Laughter has not died down and the tears stream,
the ink stain is unwiped on the table,
the kiss is imprinted on the heart,
unique, parting, unforgettable…
But this does not last for long…
The firmament is no longer overhead, and somewhere
in a dull suburb there is a lonely house,
where it’s cold in winter and hot in summer,
where a spider lives and dust lies on everything,
where passionate letters burn to ash,
portraits change stealthily,
and people come to it as though to a grave,
and wash their hands when they get home,
and shake off a quick tear
from their tired lids, and sigh heavily…
But the clock ticks, one spring
replaces another, the sky turns pink,
names of towns change,
and eye-witnesses of events die,
and there is no one to cry with, no one to reminisce with.
Those shadows pass from us slowly
which we no longer call upon,
whose return would be terrible to us.
And once awake, we see that we have forgotten
the very road that led to the lonely house,
and choking with shame and anger,
we run to it, but (as in a dream)
everything is different there: people, things, walls,
and nobody knows us; we are strangers.
We got to the wrong place… Oh God!
Now comes the most bitter moment:
we realize that we could not contain
this past in the frontiers of our life,
and it is almost as alien to us
as to our neighbour in the flat,
and that we would not recognize those who have died,
and those whom God parted from us
got on splendidly without us –
even better…

[Anna Akhmatova, 1953, trad. Richard McKane]

domingo, 16 de agosto de 2020

Fragmentos

 1

Me quer? Não me quer? As mãos torcidas
os dedos
                despedaçados um a um extraio
assim se tira a sorte enquanto
                                                no ar de maio
caem as pétalas das margaridas
Que a tesoura e a navalha revelem as cãs e
que a prata dos anos tinja seu perdão
                                                            penso
e espero que eu jamais alcance
a imprudente idade do bom senso


2

Passa da uma
                       você deve estar na cama
Você talvez
                    sinta o mesmo no seu quarto
Não tenho pressa
                             Para que acordar-te
com o
          relâmpago
                           de mais um telegrama


3

O mar se vai
o mar de sono se esvai
Como se diz: o caso está enterrado
a canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites
Inútil o apanhado
da mútua dor mútua quota de dano


4

Passa da uma você deve estar na cama
À noite a Via Láctea é um Oka de prata
Não tenho pressa para que acordar-te
com relâmpago de mais um telegrama
como se diz o caso está enterrado
a canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites inútil o apanhado
da mútua dor mútua quota de dano
Vê como tudo agora emudeceu
Que tributo de estrelas a noite impôs ao céu
em horas como esta eu me ergo e converso
com os séculos a história do universo


5

Sei o pulso das palavras a sirene das palavras
Não as que se aplaudem do alto dos teatros
Mas as que arrancam caixões da treva
e os põem a caminhar quadrúpedes de cedro
Às vezes as relegam inauditas inéditas
Mas a palavra galopa com a cilha tensa
ressoa os séculos e os trens rastejam
para lamber as mãos calosas da poesia
Sei o pulso das palavras parecem fumaça
Pétalas caídas sob o calcanhar da dança
mas o homem com lábios alma carcaça.

 

[Vladimir Maiakóvski, trad. Augusto de Campos]
[24.09.2017]

O tu e o vós

Ela o vós neutro, sem querer,
trocou no tu afetuoso;
fez-me de ventura nascer
sonhos no espírito amoroso.
Demoro, pensativo, ali:
não mais fitá-la é-me impensável.
E digo: “Como sois amável!”
mas penso: “Como quero a ti”.

[Alexander Pushkin, trad. José Casado]
[18.09.2017]

A Extraordinária Aventura Vivida por Vladimir Maiakóvski no Verão na Datcha

 A tarde ardia com cem sóis.
O verão rolava em julho.
O calor se enrolava
no ar e nos lençóis
da datcha onde eu estava.
Na colina de Púchkino, corcunda,
o monte Akula,
e ao pé do monte
a aldeia enruga
a casa dos telhados.
E atrás da aldeia,
um buraco
e no buraco, todo dia,
o mesmo ato:
O sol descia
lento e exato.
E de manhã,
outra vez,
por toda a parte
lá estava o sol
escarlate.
Dia após dia
isto
começou a irritar-me
terrivelmente.
Um dia me enfureço a tal ponto
que, de pavor, tudo empalidece.
E grito ao sol, de pronto:
“Desce!
Chega de vadiar nessa fornalha!”
E grito ao sol:
"Parasita!
Você, aí, a flanar pelos ares,
e eu, aqui, cheio de tinta,
com a cara nos cartazes!”
E grito ao sol:
"Espere!
Ouça, topete de ouro,
e se em lugar
desse ocaso
de paxá
você baixar em casa
para um chá?”
Que mosca me mordeu!?
É o meu fim!
Para mim
sem perder tempo
o sol
alargando os raios-passos
avança pelo campo.
Não quero mostrar medo.
Recuo para o quarto.
Seus olhos brilham no jardim.
Avançam mais.
Pelas janelas,
pelas portas,
pelas frestas,
a massa
solar vem abaixo
e invade a minha casa.
Recobrando o fôlego,
me diz o sol com voz de baixo:
"Pela primeira vez recolho o fogo,
desde que o mundo foi criado.
Você me chamou?
Apanhe o chá,
pegue a compota, poeta!”
Lágrimas na ponta dos olhos
– o calor me fazia desvairar –  
eu lhe mostro
o samovar:
"Pois bem,
sente-se, astro!”
Quem me mandou berrar ao sol,
insolências sem conta?
Contrafeito,
me sento numa ponta
do banco e espero a conta
com um frio no peito.
Mas uma estranha claridade
fluía sobre o quarto
e esquecendo os cuidados
começo
pouco a pouco
a palestrar com o astro.
Falo
disso e daquilo,
como me cansa a Rosta,
etc.
E o sol:
"Está certo,
 mas não se desgoste,
não pinte as coisas tão pretas.
E eu? Você pensa
que brilhar
é fácil?
Prove, pra ver!
Mas quando se começa
é preciso prosseguir
e a gente vai e brilha pra valer!”
Conversamos até a noite,
ou até o que, antes, eram trevas.
Como falar, ali, de sombras?
Ficamos íntimos,
os dois.
Logo,
com desassombro,
estou batendo no seu ombro.
E o sol, por fim:
"Somos amigos
pra sempre, eu de você,
você de mim.
Vamos poeta,
cantar,
luzir,
no lixo cinza do universo.
Eu verterei o meu sol
e você o seu
com seus versos.”
O muro das sombras,
prisão das trevas
desaba sob o obus
dos nossos sóis de duas bocas.
Confusão de poesia e luz,
chamas por toda a parte.
Se o sol se cansa
e a noite lenta
quer ir pra cama,
marmota sonolenta,
eu, de repente,
inflamo a minha flama
e o dia fulge novamente.
Brilhar para sempre,
brilhar como um farol,
brilhar com brilho eterno,
gente é pra brilhar,
que tudo mais vá pro inferno,
este é o meu slogan
e o do sol.

[Vladimir Maiakóvski, trad. Augusto de Campos]
[25.07.2017]

One art

The art of losing isn’t hard to master; so many things seem filled with the intent to be lost that their loss is no disaster. Lose some...