quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Aula de Arqueologia

 não, ela era bem como tu
como mais ninguém foi depois ou é ou virá a ser
e tu procuras ainda a última cara
a promessa do encaixe da mão no perfil
e isso acabou há tantos anos
foi antes mesmo desta cidade
um facto para ser coberto
por ruínas e areias e novas construções e desenterrado
quando alguém voltar para tactear
entre as omoplatas e a cavidade torácica
o que agora está descomposto
e foi esta coisa viva:
o corpo que tu usaste

escavado com o cuidado de pincéis que afastam o pó
quando os arqueólogos desta equipa puderem decidir
que o que em ti esteve vivo é apenas este golpe de teatro
uma coisa para ser guardada numa caixa insignificante
num museu qualquer um corpo são certos indícios
não um objecto estranho ou uma cidade
a que voltaste muitas vezes
ou outra cópia desse livro que amaste e que era
a única coisa a declarar num trânsito mortal
a um qualquer funcionário cansado
de um serviço de estrangeiros e fronteiras

um livro vermelho num dia de festa
demasiada alegria na mesma de um qualquer café
numa terra demasiado pequena para estranhos
como nós não serem olhados como estrangeiros
e o que em ti esteve vivo muito menos
do que esta atmosfera lunar
o último gesto do último dos teus começos

ela era como tu e no entanto deitou-se contigo
muito depois das estações terminais
um inverno tão completo como um naufrágio
tu falaste do calor da tua cidade até à mitologia
florença acesa de guelfos e gibelinos
brancos e negros a tua violência é tanto como a deles
uma vontade cega sem inteligência sem civilização
atacar primeiro antes que te ataquem a ti
uma destas noites a caminho de casa
ao atravessar qualquer uma das pontes
trespassa-te um amor que não esperaste chegado
muito antes da ternura e do desprezo e reparas
como o frio por estas paragens enlouquece as pessoas

e tudo o que agora se vai partir
foram os teus arranjos o teu cuidado com os cacos
diz-lhes adeus enquanto ainda há música
e tu ainda não despiste as asas
não limpaste da cara o pó-de-arroz
e o amor que carregas contigo
não é ainda doente como oum longo cuidado
indigno de aparatos e sem conserto
porque para isto nunca nada esteve pronto

de manhã na espreiteza da passagem
quando tudo for inadiavelmente mais claro
e as lanternas de papel humilhadas de chuva
balançarem nos ramos como um passado
tudo factos que permanecerão desconhecidos
por exemplo: só o tropeço existe de verdade
e isso é porque insistes desde sempre
em usar sapatilhas um tamanho acima
e o dono do bar é um homem envelhecido
que rola as pipas para o mundo subterrâneo da cave
por um alçapão aberto no pavimento
como um encenador prepara a sua cena
sozinho na manhã que rompe em laranja e negro
ambos privados de profecia
apenas tu testemunha e ele testemunhado

e qualquer magia fica com o empregado que o ajuda
o seu trabalho pesado e difícil de besta de carga
a solidão solene dos dois no gelo desta manhã
por algumas moedas e guarida
este rapaz com os braços apoiados na superfício do chão
as pernas a desaparecerem escada abaixo
thomas bernhard empregado de loja
uma infância entre pontes, montanhas, nazis
um pai que nunca chegou, que teve de ser procurado
à espera da próxima carga de braços abertos
num peito que a partir daqui
não vai poder encher-se de ar que chegue
mas por enquanto naufragado num charco
de cerveja escura e espessa
e com a cor e o cheiro do mel
entre o chão e o subterrâneo

tu pensas é ainda tão cedo
e quando anoitecer e tu caminhares
na escuridão da rua para a tua casa apagada
nestes quarteirões carregados de neve
onde cada vez menos dos teus amigos se riem
e onde se acendem os últimos trompetes
e faz tanto frio que o metal da chave se contrai
e não podes sequer abrir a porta da tua morada
lembra-te que não foi esta noite nem este quarto
e aí onde estás desamparado como ficaste
não compres este momento por menos
não te apanhes a dizer
não foi isto o combinado

[Tatiana Faia]

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