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quinta-feira, 20 de agosto de 2020

A Divisão do Frango (Ossos, plasticina, 2017)

 Alguns ficaram com as minhas partes
piores. Isto é como a divisão do frango
em família numerosa. Faltam coxas para todos.
Isto é como a aprendizagem da generosidade:
o peito ou o pescoço ou as asas. Lá em casa,
fazíamos de conta que preferíamos outra coisa
e dávamos as partes melhores aos irmãos.
Não sei o que isso dirá de mim e dos meus irmãos.
Sei que eu e os meus irmãos tivemos sempre
uns dos outros as partes melhores.
Parece-me justo e valioso. Parece-me informação
digna de CV ou de Wikipédia. Isto devia dar empregos.
Isto devia ser o primeiro dado de uma biografia:
“dava a parte melhor do frango aos seus irmãos”.

E depois apaixonamo-nos. Complica-se a divsião do frango
quando há coxas para todos: para dois.
Difícil haver tanta coxa. Difícil não ser preciso dividir.
Difícil ver cada vez menos os irmãos, que provariam à mesa
sermos nós ainda a criança generosa. E que se houvesse
menos frango ou mais gente, ofereceríamos a parte melhor.

Alguns ficaram com minhas partes piores.
Os que não amei, não gostavam de me ver comer frango.
Comiam ossos e deram cabo de mim. Ainda me telefonam.
Os que amei iam comigo à churrasqueira, pediam molho picante
à parte (sempre tive medo de perder o ar) e batatas fritas na hora.
Um dia, nunca mais me quiseram ver.

Apenas pelos meus irmãos soube dividir-me.
Apenas eles ficaram para lá da refeição.

Não quero com isto justificar-me. Entendo.
Parti bem o frango mas parti sempre mal.

Só que às vezes lamento ninguém ter esperado
que eu crescesse. É natural.
Em tempo de aviários, ninguém espera isso de um frango.

[Filipa Leal]

Mulher de Perfil com Máscara na Mão Direita

 Mulher a inventar o corpo, a boca
cheia de vestígios de pântano, de heras,
de lodo, de incomunicabilidade.
Mulher segurando a máscara,
preparando-se para o esconderijo,
para a fácil loucura de já não ser real.
Mulher de perfil, tão pendurada, tão sem olhos
frontais, provocando-se a própria obra que a inclui,
desmotivando-se de tudo o que não for matéria,
soltando-se de todos os que a vêem bem.
Mulher enchendo-se de bronze,
tapando-se com a escultura que ela faráde si mesma.

[Filipa Leal]

Vem à Quinta-Feira

 Vem à quinta-feira.

É quase fim-de-semana e podemos, talvez, beber uma cerveja
ao cair da tarde, enquanto planeamos a viagem a Paris. E se Paris
for muito caro - sei que isto não está fácil - podemos ir a
         Guimarães
assim a um concerto, que ouvir é a maneira mais pura de calar.

Vem à quinta-feira.

A seguir, temos ainda a sexta e talvez me esperes à porta do
          emprego,
e talvez fiques para sábado e domingo, e talvez o mundo pare
de acabar tão depressa.

Vem à quinta-feira.
Mas não venhas nesta, vem na próxima.
Nesta, tenho um compromisso que não posso adiar, é um
          compromisso
profissional - sabes que isto não está fácil - e talvez nos dê
       hipótese de irmos
a Paris ou a Guimarães. Vem na próxima, que eu preciso de
          tempo
para arranjar o cabelo, para arranjar o coração,
para elaborar a lista do que me falta fazer contigo.

Vem à quinta-feira e não te demores.
Enquanto te escrevo, já fui elaborando a lista
(sabes como gosto de pensar em tudo
ao mesmo tempo)
e afinal o que me falta fazer contigo
não é caro:
- viajar de autocaravana,
- dançar na Estrada Nacional,
- ver-te chorar.
Choras tão pouco. Ainda bem que estás contente.

Vem à quinta-feira.

Se não puder ir a Paris ou a Guimarães, não te preocupes.
Vem na mesma, que eu vou apanhando as canas-da-índia, as
         fiteiras,
eu vou recolhendo a plha e reunindo cordas e lona.
Já estive a aprender no Youtube como se faz uma cabana.
Vem na mesma, que eu vou procurando um lugar seguro.
Vem na mesma porque a cabana, como a casa, só funciona
          com amor
- ou, pelo menos, é o que diz o Youtube.

Temos ainda tanto para fazer.
Por isso, se algum dia voltares, meu amor, volta numa quinta.

[Filipa Leal]

A Recusa do Amor

Não temos uma arma apontada à cabeça,
dizias-me. Mas era impossível que não visses,
impossível. Eu ao teu lado com aquela dor
no pescoço, imóvel, cuidadosa, o cano frio
na minha testa, a vida a estoirar-me
a qualquer momento. Era impossível que não visses
o revólver que levava sempre comigo. Por isso dormia
virada para o outro lado, não era por me dar mais jeito
aquele lado, era por me dar mais jeito
não morrer quando nos víamos,
era para dormir contigo só mais esta vez,
sempre só mais esta vez,
sempre com o meu amor a virar-se de costas,
sempre com o teu amor apontado à cabeça.

[Filipa Leal]

Manual de Despedida para Mulheres Sensíveis

Ser digna na partida, na despedida, dizer adeus com jeito,
não chorar para não enfraquecer o emigrante,
mesmo que o emigrante seja o nosso irmão mais novo,
dobrar-lhe as camisas, limpar-lhe as sapatilhas
com um pano húmido, ajudá-lo a pesar a mala
que não pode levar mais de vinte quilos
(quanto pesará o coração dele? e o meu?),
três pares de sapatos, um jogo de lençóis, o corta-vento, oferecer-lhe a medalha que a Mãe usava sempre que partia
e que talvez não tenha usado quando partiu para sempre,
ter passado o dia à procura da medalha pela casa toda
(ninguém sai mais daqui sem a medalha, ninguém sai mais daqui),
pensar que a data escolhida para partir é a da morte da Mãe,
pensar que a Mãe não está comigo para lhe dobrar as camisas
e mesmo assim não chorar, nunca chorar,
mesmo que o Pai esteja a chorar, mesmo que estejam todos a chorar,
tomar umas merdas, se for preciso: uns calmantes, uns relaxantes,
uns antioxidantes para não chorar; andar a pé para não chorar,
apanhar sol para não chorar, jantar fora para não chorar, conhecer gente,
mas gente animada, pintar o cabelo e esconder as brancas,
que os grisalhos são mais chorões, dizer graças para não pôr também
os amigos a chorar, os amigos gostam é de nós a rir, ver séries cómicas
até cair, acordar mais cedo para lhe fazer torradas antes da viagem,
com manteiga, com doce de mirtilo, com tudo o que houver no frigorífico,
e não pensar que nunca mais seremos pequenos outra vez,
cheios de Mãe e de Pai no quarto ao lado,
cheios de emprego no quarto ao lado quando ainda existia Portugal.

É tanto o que se pede a um ser humano do século vinte e um.
Que morra de medo e de saudade no aeroporto Francisco Sá Carneiro.
Mas que não chore.

[Filipa Leal]

Repara na lentidão do adeus

 A palavra navegar não navega
e mesmo assim o verso quer-se mar
e mesmo assim o poeta escreve colete
como se a palavra o salvasse
como se cada fosse cada vez
mais simples nas suas arestas
como se cada fosse realmente
a esquina que dobramos nesse adeus
tão lento, lentíssimo ainda a acenar
e o poeta tão chegado
e mesmo assim

Repara na suspensão do adeus

[Filipa Leal]

One art

The art of losing isn’t hard to master; so many things seem filled with the intent to be lost that their loss is no disaster. Lose some...