domingo, 16 de agosto de 2020

Mandriagem

 “sem tir-te nem guar-te
descubro no dicionário a avidez
da minha língua atenta
às formigas; hirta agora;
agora solta contra a
tua, imaginando que
sons negros estaria
talvez a fabricar
a superfície do teu lenho;
procuro o tronco, a arte
de provocar lentamente
vidinhas, porosidades
sugando a página; o acaso
constrange meu abraço;
produz cópias, leituras,
corrimentos de matéria escrita;
procuro uma forma
cindida, a robusta
madeira da tua espécie;
introduzo no mastro
indícios da minha origem; os distantes
tetos portugueses, portos,
oliveiras decifradas pelo
ócio; como a folhear
pelo caminho a riqueza
vadia dos vocábulos; em
listas, em camadas, em inesperadas
posições que meu lado pensante
fascina; desistir no intervalo
a dura carpintaria e
abordar estreitamente a
fluidez de outro carlos; as mãos
indolentes já esquecem
marcas, calos, pequenas
alusões internas, agora riscos
que a cigana lê,
distraída, inseticida,
mística vagabunda, os cultos
todos da infância; sair
de trás das saias, dançar
em sedução para
comover teu fogo
retido antes em sílabas,
em colunas de palha, em
calculadas coreografias;
me sinto cegamente
onipotente, hoje posso
(escrever) tudo, me lambuzo
de escrever, escrevo
peixes, imitação de
peixes, cobra aquática
recolhendo no seu trânsito
a insuficiência, o garbo
e o dorso (altivo) dessa
voz, embarco com gula,
pressa de engolir o engano;
estômago errante, outros
bichos; vadear
o rio acima ou abaixo
da coragem; e pôr fim
à desejada (meu pai, minha
mãe) faina original
com um movimento fortuito;
um acidente me corta a
boca; salivo aos
trancos o acarminado acarneirado
alfabeto irregular
preso entre os teus
flancos”
 

[Ana Cristina Cesar]
[07.02.2018]

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