quinta-feira, 20 de agosto de 2020

 A loucura é o mais credível oráculo.
Acredito nas visões que aparecem sem
origem, na agressão clara dos sentidos,
transformando-os, tirando-os do lugar.
A loucura anuncia e rói, iluminando à
volta das flores.

Não tenho chão e vou longe quando
ando sobre lâminas,
inundando-me no rebentamento das
cabeças.

Por cima de mim há milhões de vozes,
há milhões de vozes por cima da minha
cabeça.
Embaixo estão os astros e as espingardas
e eu sentada em planície ao mesmo
tempo que tenho nojo.

Tenho o espaço cheio de artérias e
um êxtase que pula na boca.
Trago a cara cheia de rostos.
Na escuridão sinto a pele como se
fosse minha, há aqui saudade como
uma corrente de ar
há aqui vida como um animal deitando-se
sobre o amor em espinhos.

Amar o que imaginamos é absolutamente
devastador.
Como eu, ruminando futuro,
rondando falésias.

A solidão balança como os cegos,
embriagando-me de orifícios.
A solidão é a tua luz centrípeta
no acaso da vida,
é a casca no exterior do mundo,
o fim da raiva, sou eu louca iluminando
à volta das flores, sentada em planície.
Tendo nojo.

Há beleza nesta falta de tudo e nestes
três cabelos mortos.
Eu sou o alimento completo
e intenvo-me em fabulosa neblina
à procura de gente.
Espanto-me e surjo.

[Cláudia R. Sampaio]

Nenhum comentário:

Postar um comentário

One art

The art of losing isn’t hard to master; so many things seem filled with the intent to be lost that their loss is no disaster. Lose some...