quinta-feira, 20 de agosto de 2020

“sonhava-se com árvores e com amores epífitos
desaguava-se em sombras de amianto
inventava rios, trombas, sexo
viagens de gôndola no cabelo da
vizinha da frente
que não reparava que eu
falava com as plantas dela
porque não tinha mais companhia
as plantas dela, eu
e os mosquitinhos a sugarmos a seiva
montados nas gôndolas
que cheiravam à cozinha dela
à velhice dela

andava-se com a vida ao pescoço
de tão contentes
inchava-se urticária
ninguem trazia guilhotinas, só fé
ninguém pensava que ser triste era triste
ninguém pensava que viver era estar vivo
a minha avó via-me caídeira de ribanceiras,
sobrevivente a dois pneus de bicicleta
atropelada de ideias,
veneradora de avó e árvores

andava-se com qualquer um às costas
andava-se de trombas e não fazia mal
andava-se na berlinda e no ballet
quando fazia a espargata e
punha o pé junto ao pescoço
tudo parecia menos ridículo
andava-se na rua a sorrir pliés
corria-se à volta de um arbusto
desfaziamo-nos em sissones
e vomitava-se a vida depois do almoço

vomitava-se e era bom

saía-se da cama a gritar “Aleluia”
o corpo em ingestões atmosféricas de amores
os calcanhares no focinho,
a cabeça vendada
saía-se da cama a gritar “dói-me os cornos”
mas nada disso fazia mal
porque se os cornos doem, um dia param de doer
assim como as costas, a alma
e as inevitáveis injúrias

e sugava a seiva do cimento do
prédio dos Olivais, só de tijolo
sem pintura
sem porta
sem campainhas
decapitado

decapitavam-se as coisas e não fazia mal
as coisas decapitadas vivem por elas próprias
não têm cornos que lhe doam
metia-se os cornos e não fazia mal
porque tudo era decapitado

saía-se da cama com uma perna a menos
ou um braço
ou um pai a menos
e mais vale um pai num prédio só de tijolo
do que dois a voar

mas os meus pais voaram todos.

 

[Cláudia R. Sampaio]

Nenhum comentário:

Postar um comentário

One art

The art of losing isn’t hard to master; so many things seem filled with the intent to be lost that their loss is no disaster. Lose some...