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quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Ode II

Demora-te sobre a minha hora.
Antes de me tomar, demora.
Que tu  me percorras cuidadosa, etérea
Que eu te conheça lícita, terrena

Duas fortes mulheres
Na sua dura hora.

Que me tomes sem pena
Mas voluptuosa, eterna
Como as fêmeas da Terra.

E a ti, te conhecendo
Que eu me faça carne
E posse
Como fazem os homens.

[Hilda Hilst]

Jardim em Pompéia, 2020

domingo, 16 de agosto de 2020

Tenho preguiça
pelos filhos que vão nascer.

Teremos que explicar
tanta cousa a tantos deles.
Um dia hão de me perguntar
Tudo o que perguntei:
Mãe, por que não posso
ver Augusto quando quero?
Mãe, andei lendo muito esses dias
e estou quase chegando
a encontrar o que eu queria.

Inutilidade das palavras.

Tenho preguiça,
Tanta preguiça
Pelos filhos que vão nascer.
Dez, vinte, trinta anos
e estarão procurando alguma cousa.
Nunca se lembrarão
daqueles que já morreram
e procuraram tanto.
Vão custar (ó deuses)
a entender aqueles
que se mataram.
Os filhos vão nascer,
coitados!
Hão de pensar que são eles
os destinados.
Hão de pensar que você
nunca passou o que eles estão passando.
Os filhos que vão nascer…

Insatisfeitos.
Incompreendidos.


[Hilda Hilst]
[03.02.2018]

One art

The art of losing isn’t hard to master; so many things seem filled with the intent to be lost that their loss is no disaster. Lose some...