sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Che la materia provochi il contagio
se toccata nelle sue fibre ultime
recisa come il vitello dalla madre
come il maiale dal proprio cuore
stridendo nel vedere le sue membra strappate;

Che tale schianto generi
la stessa energia che divampa
quando la società si lacera, sacro velo del tempio
e la testa del re cade spiccata dal corpo dello stato
affinché il taumaturgo diventi la ferita;

Che l'abbraccio del focolare sia radiazione
rogo della natura che si disgrega
inerme davanti al sorriso degli astanti
per offrire un lievissimo aumento
della temperatura ambientale;

Che la forma di ogni produzione
implichi effrazione, scissione, un addio
e la storia sia l'atto del combùrere
e la Terra una tenera catasta di legname
messa a asciugare al sole,

è incredibile, no?

***

Que a matéria provoque o contágio
se tocada em suas últimas fibras
dividida como o bezerro da mãe
como o porco do seu próprio coração
esganiçando ao ver seus membros dilacerados;

Que tal aflição gere
a mesma energia que deflagra
quando a sociedade se despedaça, sacro véu do templo
e a cabeça do rei cai arrancada do corpo do estado
para que o taumaturgo se torne a ferida;

Que o abraço da lareira seja radiação
pira da natureza que se desagrega
inerme diante do sorriso dos presentes
para oferecer um levíssimo aumento
da temperatura ambiental;

Que a forma de toda produção
implique violação, cisão, um adeus
e a história seja o ato da combustão
e a Terra uma tenra pilha de madeira
posta a secar ao sol,

é incrível, não?


[Valerio Magrelli, trad. Patricia Peterle e Lucia Wataghin]

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

 a mulher
é algo de misterioso
que está entre o canto
e a metáfora"

[Alda Merini]

Amor Violeta

O amor me fere é debaixo do braço,
de um vão entre as costelas.
Atinge o meu coração é por esta via inclinada.
Eu ponho o amor no pilão com cinza
e grão de roxo e soco. Macero ele,
faço dele cataplasma
e ponho sobre a ferida.
 
[Adélia Prado]

 

Não lembro que idade tinha quando fiquei sabendo o que era Antes
Mas Antes se tornou para mim a extensão do mundo tateável
Com as mãos alcançava meus pais, a poeira na escada
podia remexer as raízes da terra e esmagar
nelas frutas que não dariam descendência
O mundo era algo em torno dos vasos da varanda
Ouvia o latido na rua o canto e outro segredo
Com o sol já não podia me queimar
Não por não poder tocá-lo, mas porque me era proibido
pular da sombra nas infinitas horas de pico
Então remoía as ondas dentro do castelo de areia
Esbravejava o mar por minha conta
cada balde um arrecife plástico
Piscinas naturais em poliméricos sintéticos

Cantava na praia ou na varanda
Até que o mar me trouxe Antes
E Antes era mais que eu em tudo

Antes estava lá quando meus pais se conheceram
Quando os bichos da Terra se tornaram
outros bichos e as plantas se cravaram em certas pedras
ao imprimir, com seus contornos na terra, xilogravuras do tempo

Eu não podia ter nascido até então
Era preciso esperar tudo acabar
A juventude das avós o nascimento dos primos mais velhos
Os casamentos os divórcios os namoros
escondidos os dias coletados
por todas as fotografias
os filmes franceses
o campeonato pernambucano
a construção do prédio
entre o mar e a janela

Mas o mar era ainda antes
nele o corpo diacrônico afundava
dava lugar à imersão das horas

Eu poderia cantar o mar, mas o mar era mais alto
Não havia nele a linha que me separasse
de Antes
Evidentemente, a mesma que separaria Antes
de mim
O mar era a vertigem
A navegação que alcançava todo o tempo
A ressaca renovada a cada instante

Quando enfim Antes soltasse a minha mão
acordava pelo grito deveria
retornar à sombra
na hora exata

[Clarissa Xavier, aqui]

Marulhada

 De tão líquida a mulher,
de tanto mar nos olhos,
a boca seca seca a alma.
O coração em ondas
escorre sobre a face.

[Francesca Cricelli]

A Divisão do Frango (Ossos, plasticina, 2017)

 Alguns ficaram com as minhas partes
piores. Isto é como a divisão do frango
em família numerosa. Faltam coxas para todos.
Isto é como a aprendizagem da generosidade:
o peito ou o pescoço ou as asas. Lá em casa,
fazíamos de conta que preferíamos outra coisa
e dávamos as partes melhores aos irmãos.
Não sei o que isso dirá de mim e dos meus irmãos.
Sei que eu e os meus irmãos tivemos sempre
uns dos outros as partes melhores.
Parece-me justo e valioso. Parece-me informação
digna de CV ou de Wikipédia. Isto devia dar empregos.
Isto devia ser o primeiro dado de uma biografia:
“dava a parte melhor do frango aos seus irmãos”.

E depois apaixonamo-nos. Complica-se a divsião do frango
quando há coxas para todos: para dois.
Difícil haver tanta coxa. Difícil não ser preciso dividir.
Difícil ver cada vez menos os irmãos, que provariam à mesa
sermos nós ainda a criança generosa. E que se houvesse
menos frango ou mais gente, ofereceríamos a parte melhor.

Alguns ficaram com minhas partes piores.
Os que não amei, não gostavam de me ver comer frango.
Comiam ossos e deram cabo de mim. Ainda me telefonam.
Os que amei iam comigo à churrasqueira, pediam molho picante
à parte (sempre tive medo de perder o ar) e batatas fritas na hora.
Um dia, nunca mais me quiseram ver.

Apenas pelos meus irmãos soube dividir-me.
Apenas eles ficaram para lá da refeição.

Não quero com isto justificar-me. Entendo.
Parti bem o frango mas parti sempre mal.

Só que às vezes lamento ninguém ter esperado
que eu crescesse. É natural.
Em tempo de aviários, ninguém espera isso de um frango.

[Filipa Leal]

Mulher de Perfil com Máscara na Mão Direita

 Mulher a inventar o corpo, a boca
cheia de vestígios de pântano, de heras,
de lodo, de incomunicabilidade.
Mulher segurando a máscara,
preparando-se para o esconderijo,
para a fácil loucura de já não ser real.
Mulher de perfil, tão pendurada, tão sem olhos
frontais, provocando-se a própria obra que a inclui,
desmotivando-se de tudo o que não for matéria,
soltando-se de todos os que a vêem bem.
Mulher enchendo-se de bronze,
tapando-se com a escultura que ela faráde si mesma.

[Filipa Leal]

Vem à Quinta-Feira

 Vem à quinta-feira.

É quase fim-de-semana e podemos, talvez, beber uma cerveja
ao cair da tarde, enquanto planeamos a viagem a Paris. E se Paris
for muito caro - sei que isto não está fácil - podemos ir a
         Guimarães
assim a um concerto, que ouvir é a maneira mais pura de calar.

Vem à quinta-feira.

A seguir, temos ainda a sexta e talvez me esperes à porta do
          emprego,
e talvez fiques para sábado e domingo, e talvez o mundo pare
de acabar tão depressa.

Vem à quinta-feira.
Mas não venhas nesta, vem na próxima.
Nesta, tenho um compromisso que não posso adiar, é um
          compromisso
profissional - sabes que isto não está fácil - e talvez nos dê
       hipótese de irmos
a Paris ou a Guimarães. Vem na próxima, que eu preciso de
          tempo
para arranjar o cabelo, para arranjar o coração,
para elaborar a lista do que me falta fazer contigo.

Vem à quinta-feira e não te demores.
Enquanto te escrevo, já fui elaborando a lista
(sabes como gosto de pensar em tudo
ao mesmo tempo)
e afinal o que me falta fazer contigo
não é caro:
- viajar de autocaravana,
- dançar na Estrada Nacional,
- ver-te chorar.
Choras tão pouco. Ainda bem que estás contente.

Vem à quinta-feira.

Se não puder ir a Paris ou a Guimarães, não te preocupes.
Vem na mesma, que eu vou apanhando as canas-da-índia, as
         fiteiras,
eu vou recolhendo a plha e reunindo cordas e lona.
Já estive a aprender no Youtube como se faz uma cabana.
Vem na mesma, que eu vou procurando um lugar seguro.
Vem na mesma porque a cabana, como a casa, só funciona
          com amor
- ou, pelo menos, é o que diz o Youtube.

Temos ainda tanto para fazer.
Por isso, se algum dia voltares, meu amor, volta numa quinta.

[Filipa Leal]

A Recusa do Amor

Não temos uma arma apontada à cabeça,
dizias-me. Mas era impossível que não visses,
impossível. Eu ao teu lado com aquela dor
no pescoço, imóvel, cuidadosa, o cano frio
na minha testa, a vida a estoirar-me
a qualquer momento. Era impossível que não visses
o revólver que levava sempre comigo. Por isso dormia
virada para o outro lado, não era por me dar mais jeito
aquele lado, era por me dar mais jeito
não morrer quando nos víamos,
era para dormir contigo só mais esta vez,
sempre só mais esta vez,
sempre com o meu amor a virar-se de costas,
sempre com o teu amor apontado à cabeça.

[Filipa Leal]

Manual de Despedida para Mulheres Sensíveis

Ser digna na partida, na despedida, dizer adeus com jeito,
não chorar para não enfraquecer o emigrante,
mesmo que o emigrante seja o nosso irmão mais novo,
dobrar-lhe as camisas, limpar-lhe as sapatilhas
com um pano húmido, ajudá-lo a pesar a mala
que não pode levar mais de vinte quilos
(quanto pesará o coração dele? e o meu?),
três pares de sapatos, um jogo de lençóis, o corta-vento, oferecer-lhe a medalha que a Mãe usava sempre que partia
e que talvez não tenha usado quando partiu para sempre,
ter passado o dia à procura da medalha pela casa toda
(ninguém sai mais daqui sem a medalha, ninguém sai mais daqui),
pensar que a data escolhida para partir é a da morte da Mãe,
pensar que a Mãe não está comigo para lhe dobrar as camisas
e mesmo assim não chorar, nunca chorar,
mesmo que o Pai esteja a chorar, mesmo que estejam todos a chorar,
tomar umas merdas, se for preciso: uns calmantes, uns relaxantes,
uns antioxidantes para não chorar; andar a pé para não chorar,
apanhar sol para não chorar, jantar fora para não chorar, conhecer gente,
mas gente animada, pintar o cabelo e esconder as brancas,
que os grisalhos são mais chorões, dizer graças para não pôr também
os amigos a chorar, os amigos gostam é de nós a rir, ver séries cómicas
até cair, acordar mais cedo para lhe fazer torradas antes da viagem,
com manteiga, com doce de mirtilo, com tudo o que houver no frigorífico,
e não pensar que nunca mais seremos pequenos outra vez,
cheios de Mãe e de Pai no quarto ao lado,
cheios de emprego no quarto ao lado quando ainda existia Portugal.

É tanto o que se pede a um ser humano do século vinte e um.
Que morra de medo e de saudade no aeroporto Francisco Sá Carneiro.
Mas que não chore.

[Filipa Leal]

Sto rifacendo la punta al pensiero,
come se il filo fosse logoro
e il segno divenuto opaco.
Gli occhi si consumano come matite
e la sera disegnano sul cervello
figure appena sgrossate e confuse.
Le immagini oscillano e il tratto si fa incerto,
gli oggetti si nascondono:
è come se parlassero per enigmi continui
ed ogni sguardo obbligasse
la mente a tradurre.
La miopia si fa quindi poesia,
dovendosi avvicinare al mondo
per separarlo dalla luce.
Anche il tempo subisce questo rallentamento:
i gesti si perdono, i saluti non vengono colti.
L’unica cosa che si profila nitida
è la prodigiosa difficoltà della visione.

[Valerio Magrelli]

 Tutto il mondo è vedovo se è vero che tu cammini ancora
tutto il mondo è vedovo se è vero! Tutto il mondo
è vero se è vero che tu cammini ancora, tutto il
mondo è vedovo se tu non muori! Tutto il mondo
è mio se è vero che tu non sei vivo ma solo
una lanterna per i miei occhi obliqui. Cieca rimasi
dalla tua nascita e l´importanza del nuovo giorno
non è che notte per la tua distanza. Cieca sono
ché tu cammini ancora! cieca sono che tu cammini
e il mondo è vedovo e il mondo è cieco se tu cammini
ancora aggrappato ai miei occhi celestiali.

[Amelia Rosselli]

Se impazzisco non fatemi del male.
Se sono stata una sentimentale,
sempre cascata nello stesso errore,
non fatemi del male, per favore.
Visto che… dato… dato… non so cosa,
ecco, ci siamo, divento nervosa;
è che li sento e che mi manca il fiato.
Dato che alla fine, tutto sommato,
io ho tentato. Ho voluto tentare.
E se ho sbagliato cosa posso fare?
sbagliare ancora e ancora e cosí via.
E cosí sia. In qualche modo sia,
per idiozia, per malattia e disgusti.
Non ci siamo capiti, siamo giusti,
siamo rimasti sempre degli estranei.
Compatrioti, miei contemporanei,
compagni senza occhi e senza orecchi,
secchi e secchi di sangue e sangue a secchi
dai vostri piccoli luridi cuori!
Venite sí o no a scavarmi fuori?
Muovetevi e portatemi con voi.
E dove poi? Li sento gli avvoltoi
che vanno e vengono lassú. Li sento
in certi momenti, in questo momento,
tutti i giorni lassú, da giorni e giorni.
Ne vengono persino dai dintorni,
a darsi il cambio, vengono, poi vanno.
Mangiano, scopano… Quanti saranno?
topi di giorno, tutto di nascosto…
Ma quanti saranno? Avanti, c’è posto!
Avanti! Forza, avanti, delinquenti,
e senza storie, foto, incartamenti…
Morti prima dell’alba? senti senti…

[Patrizia Valduga]

Às vezes entristece-me esta cama cheia de espaço
isto de não servir a ninguém
penso: mas que medida tenho eu
que nunca sou roupa para os outros

Diria que não é culpa minha
sei que faço a vida como as outras pessoas
perdida no horizonte de um entardecer canalha
vindo para casa sorrindo aos vizinhos
com um saco de fruta na mão

Penso: todos vêem que fui às compras,
que tenho o ar leve de quem parou no café espalhando perfume
dizendo o que está certo sobre este dia
sendo a mulher exacta do que é ser mulher
servindo o balcão a todo o comprimento
(e tudo pode mudar depois de uma bica)

Como é bom saber que por aqui todos estão vivos
ignorando a minha dificuldade em escolher maçãs

Entrego-me ao destino,
há muito que não conto contigo
E olho a fruta que não como, pernas nuas e mão no sexo


[Cláudia R. Sampaio]

 A loucura é o mais credível oráculo.
Acredito nas visões que aparecem sem
origem, na agressão clara dos sentidos,
transformando-os, tirando-os do lugar.
A loucura anuncia e rói, iluminando à
volta das flores.

Não tenho chão e vou longe quando
ando sobre lâminas,
inundando-me no rebentamento das
cabeças.

Por cima de mim há milhões de vozes,
há milhões de vozes por cima da minha
cabeça.
Embaixo estão os astros e as espingardas
e eu sentada em planície ao mesmo
tempo que tenho nojo.

Tenho o espaço cheio de artérias e
um êxtase que pula na boca.
Trago a cara cheia de rostos.
Na escuridão sinto a pele como se
fosse minha, há aqui saudade como
uma corrente de ar
há aqui vida como um animal deitando-se
sobre o amor em espinhos.

Amar o que imaginamos é absolutamente
devastador.
Como eu, ruminando futuro,
rondando falésias.

A solidão balança como os cegos,
embriagando-me de orifícios.
A solidão é a tua luz centrípeta
no acaso da vida,
é a casca no exterior do mundo,
o fim da raiva, sou eu louca iluminando
à volta das flores, sentada em planície.
Tendo nojo.

Há beleza nesta falta de tudo e nestes
três cabelos mortos.
Eu sou o alimento completo
e intenvo-me em fabulosa neblina
à procura de gente.
Espanto-me e surjo.

[Cláudia R. Sampaio]

One art

The art of losing isn’t hard to master; so many things seem filled with the intent to be lost that their loss is no disaster. Lose some...