domingo, 16 de agosto de 2020

Só sexo

 Era só sexo, ou seja,
era o amor inteiro
um pequeno verão
implacável
eram mãos que pensavam
mãos com memória
eram os cabelos incendiados e o encontro
alto
dos membros
só sexo
só descoberta do desejo que nem
se tinha (seu açúcar
violento)
só acertos de conta, só viagens
aos sítios
mais exatos
só sexo, só pedaços de corpos
ardendo
do contato
só metamorfose, só passagens
e improvisos
só ser o que se adentra, só entradas
e saídas
só confusão de perna e
pensamento
só conhecimento e desastre
só estremecimento e calma
só a espera
elétrica
só facas e relâmpagos
só sexo, só queda para
o alto
só semear para
nada
só gestos gastos
à toa, só interrupção e silêncio
só bocas recebendo
-se
só voltas em torno
de um pequeno sol
escuro
só buracos
bruscos
só dois relógios
arfantes buscando
ajustar a mecânica doce
e bruta dos seus gestos
só a difícil beleza e respiração
só um nome esbarrando-se
num nome
só o espaço entre
cigarros
só lume
só o acontecimento súbito
de uma mínima canção
só atrito de foras e
dentros
só comunhões
de ecos
só forças
sem combate
só sexo

[Ana Martins Marques]
[18.11.2017]

Nenhum comentário:

Postar um comentário

One art

The art of losing isn’t hard to master; so many things seem filled with the intent to be lost that their loss is no disaster. Lose some...