domingo, 16 de agosto de 2020

Franklin

 Franklin,
fomos hoje à évora
e tão logo chegamos
corremos à catedral
para saudar os corvos
em teu nome
mas não havia corpos
então corremos à
capela dos ossos
para ver se por
acaso os corvos
não estavam lá
escondidos em algum
canto secreto e escuro
daquele templo sombrio
fugindo do sol gritante
de quase quartenta graus
a fazer companhia
aos ossos
mas não havia corvos
muito menos ossos
então corremos à
igreja da graça
para ver se por
acaso os corvos
não estavam lá
entre os meninos
da graça – meninos
que talvez fossem
atlas
que talvez fossem
leprosos
como especulou o eduardo
mas quando
alcançamos a igreja
esbaforidos e suados
percebemos que ali
não havia corvos
muito menos meninos
foi então que um anjo
se descolou
da fachada
voou até nós e
sem tocar os pés no chão disse:
– os corvos foram
ontem para lisboa
queriam saudar
o franklin
de que eles gostam tanto
mas ao pousarem lá
não o encontraram
em parte alguma
nem no cinema nimas
nem na rua augusta
nem na confeitaria nacional
a que ele vai religiosamente
duas vezes ao dia
comer dois doces
com um intervalo
de quinze minutos
entre um e outro
e assim
desolados
os corvos subiram
ao último andar do
residencial florescente
e se puseram a chorar
choraram
choraram
choraram
e as pessoas que
os ouviram lá
do alto do miradouro
dedicado à poeta
sophia de mello breyner andresen
acharam que eles
estavam cantando
e se puseram a cantar
num canto sem palavras
a mesma canção
de saudade

[Veronica Stigger]
[18.11.2017]

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