quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Ode II

Demora-te sobre a minha hora.
Antes de me tomar, demora.
Que tu  me percorras cuidadosa, etérea
Que eu te conheça lícita, terrena

Duas fortes mulheres
Na sua dura hora.

Que me tomes sem pena
Mas voluptuosa, eterna
Como as fêmeas da Terra.

E a ti, te conhecendo
Que eu me faça carne
E posse
Como fazem os homens.

[Hilda Hilst]

Jardim em Pompéia, 2020

domingo, 18 de outubro de 2020

"Ho parlato in sogno con te, Afrodite."

"Vorrei veramente essere morta.
Essa lasciandomi piangendo forte,

mi disse: 'Quanto ci è dato soffrire,
o Saffo: contro mia voglia
io devo abbandonarti.'

'Allontanati felice' risposi
'ma ricorda che fui di te
sempre amorosa.

Ma se tu dimenticherai
(e tu dimentichi!) io voglio ricordare
i nostri celesti patimenti:

le molte ghirlande di viole e rose
che a me vicina, sul grembo
intrecciasti col timo;

i vezzi di leggiadre corolle
che mi chiudesti intorno
al delicato collo;

e l'olio da re, forte di fiori,
che la tua mano lisciava
sulla lucida pelle;

e i molli letti
dove alle tenere fanciulle joniche
nasceva amore della tua bellezza."

 

[Safo, trad. Salvatore Quasimodo]

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

 

há uns anos. imagens que se perdem, apesar da fotografia.

L'antica leggenda narra che il re Mida inseguì a lungo nella
foresta il saggio Sileno, seguace di Dionisio, senza prenderlo.
Quando quello gli cadde infine fra le mani, il re domandò
quale fosse la cosa migliore e più desiderabile per l'uomo.
- F. Nietzsche

Era già sera in terra,
nel caos e nella pena,
quando improvvisa mi arrivò la voce
tua che saliva le scale.
Allora, stretto contro lo spioncino,
dietro la porta, ho atteso
per vederti apparire deformata,
pupilla e pesciolino,
sperduta nell'acquario della lente.
E mentre tutto frana senza senso,
sali le scale e sembri dirmi: "Vivi
per me." Torni da pallavolo,
ma nella sacca mi porti l'antidoto,
tu stessa, ampolla, antidoto del male.

***

A antiga lenda narra que o rei Midas perseguiu longamente na
floresta o sábio Sileno, seguidor de Dionísio, sem chegar a alcançá-
lo. Quando finalmente Sileno caiu em suas mãos, o rei lhe
perguntou qual era a coisa melhor e mais desejável para o homem.
- F. Nietzsche

Já era noite na terra,
no caos e no pesar,
quando de repente chegou tua
voz subindo as escadas.
Então, colado no olho mágico,
atrás da porta, esperei
para te ver aparecer deformada,
pupila e peixinho,
perdida no aquário da lente.
E enquanto tudo desaba sem sentido,
sobes as escadas e pareces me dizer: "Vive
para mim." Estás voltando do vôlei,
mas na bolsa me trazes o antídoto,
tu mesma, ampola, antídoto do mal.

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Infanzia del lavoro / Infância do trabalho

Guarda questa bambina
che sta imparando a leggere:
tende le labbra, si concentra
tira su una parola dopo l'altra,
pesca, e la voce fa da canna,
fila, si flette, strappa
guizzanti queste lettere
ora alte nell'aria
luccicanti
al sole della pronuncia.

***

Olha essa menina
que está aprendendo a ler:
mexe os lábios, se concentra
fisga uma palavra após a outra,
pesca, e a voz como a vara
vai, se curva, apanha
essas letras coleantes
agora altas no ar
reluzentes
sob o sol da pronúncia.

[Valerio Magrelli, trad. Patricia Peterle e Lucia Wataghin]

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

On empathy

what it sounds like is a bird breaking small bones against glass. the least of them, a sparrow, of course. you’re about to serve dinner and this is the scene. blame the bird, the impertinent windows, try not to think of the inconvenience of blood splattering violet in the dusk. how can you eat after this? do not think of whom to blame when the least of us hurdles into the next moment. a pane opening into another. the least of us spoiling your meal.

~

the smell of it will be smoke and rank. you will mutter about this for days, the injustice of splatter on your window. foolish bird. civilization. house with the view. fucking bird feeder. it will take you a week, while the flesh starts to rot under thinning feathers, while the blood has congealed and stuck, for you to realize that no one is coming to take the body. it is your dead bird. it is your glass. you have options you think. hire out. move out. leave it for the bigger blacker birds.

~

you will taste rotting just above the top of your tongue. so much, that you check yourself to make sure that it is not you. the bird deserves something. you go to the closet, pick out a shoe box. discount? designer? you start to think of how it has come to this: pondering your mortality through a bird. a dead bird. never-mind. you don’t find it a problem not running into windows.

~

it is an eyesore and we start to gather as large billows in your yard. you marvel at us, beautiful, collecting and loosening our dark bodies from white sky to your grass. and then it comes. more bones and blood. one by one crashing into the closed pane. mindless birds. brown and gray feathers. filthy pests. another. fucking feeder. we look like billions lifting into flight and then—shatter.

~

you might find a delicate humility in the art of cleaning glass. while you work, you sustain tiny slivers of opened flesh. tips of your fingers sing. shards, carnage, it has become too much. you are careful to pick up all that you can see. you call a repairman. you are careful to pick up all that you can see. you throw everything into big shiny trash bags. you are careful to pick up all that you can see. you consider french doors. you are careful to pick up all that you can see and find more with each barefoot trip through your bloodbath house. 

[Bettina Judd]

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Che la materia provochi il contagio
se toccata nelle sue fibre ultime
recisa come il vitello dalla madre
come il maiale dal proprio cuore
stridendo nel vedere le sue membra strappate;

Che tale schianto generi
la stessa energia che divampa
quando la società si lacera, sacro velo del tempio
e la testa del re cade spiccata dal corpo dello stato
affinché il taumaturgo diventi la ferita;

Che l'abbraccio del focolare sia radiazione
rogo della natura che si disgrega
inerme davanti al sorriso degli astanti
per offrire un lievissimo aumento
della temperatura ambientale;

Che la forma di ogni produzione
implichi effrazione, scissione, un addio
e la storia sia l'atto del combùrere
e la Terra una tenera catasta di legname
messa a asciugare al sole,

è incredibile, no?

***

Que a matéria provoque o contágio
se tocada em suas últimas fibras
dividida como o bezerro da mãe
como o porco do seu próprio coração
esganiçando ao ver seus membros dilacerados;

Que tal aflição gere
a mesma energia que deflagra
quando a sociedade se despedaça, sacro véu do templo
e a cabeça do rei cai arrancada do corpo do estado
para que o taumaturgo se torne a ferida;

Que o abraço da lareira seja radiação
pira da natureza que se desagrega
inerme diante do sorriso dos presentes
para oferecer um levíssimo aumento
da temperatura ambiental;

Que a forma de toda produção
implique violação, cisão, um adeus
e a história seja o ato da combustão
e a Terra uma tenra pilha de madeira
posta a secar ao sol,

é incrível, não?


[Valerio Magrelli, trad. Patricia Peterle e Lucia Wataghin]

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

 a mulher
é algo de misterioso
que está entre o canto
e a metáfora"

[Alda Merini]

Amor Violeta

O amor me fere é debaixo do braço,
de um vão entre as costelas.
Atinge o meu coração é por esta via inclinada.
Eu ponho o amor no pilão com cinza
e grão de roxo e soco. Macero ele,
faço dele cataplasma
e ponho sobre a ferida.
 
[Adélia Prado]

 

Não lembro que idade tinha quando fiquei sabendo o que era Antes
Mas Antes se tornou para mim a extensão do mundo tateável
Com as mãos alcançava meus pais, a poeira na escada
podia remexer as raízes da terra e esmagar
nelas frutas que não dariam descendência
O mundo era algo em torno dos vasos da varanda
Ouvia o latido na rua o canto e outro segredo
Com o sol já não podia me queimar
Não por não poder tocá-lo, mas porque me era proibido
pular da sombra nas infinitas horas de pico
Então remoía as ondas dentro do castelo de areia
Esbravejava o mar por minha conta
cada balde um arrecife plástico
Piscinas naturais em poliméricos sintéticos

Cantava na praia ou na varanda
Até que o mar me trouxe Antes
E Antes era mais que eu em tudo

Antes estava lá quando meus pais se conheceram
Quando os bichos da Terra se tornaram
outros bichos e as plantas se cravaram em certas pedras
ao imprimir, com seus contornos na terra, xilogravuras do tempo

Eu não podia ter nascido até então
Era preciso esperar tudo acabar
A juventude das avós o nascimento dos primos mais velhos
Os casamentos os divórcios os namoros
escondidos os dias coletados
por todas as fotografias
os filmes franceses
o campeonato pernambucano
a construção do prédio
entre o mar e a janela

Mas o mar era ainda antes
nele o corpo diacrônico afundava
dava lugar à imersão das horas

Eu poderia cantar o mar, mas o mar era mais alto
Não havia nele a linha que me separasse
de Antes
Evidentemente, a mesma que separaria Antes
de mim
O mar era a vertigem
A navegação que alcançava todo o tempo
A ressaca renovada a cada instante

Quando enfim Antes soltasse a minha mão
acordava pelo grito deveria
retornar à sombra
na hora exata

[Clarissa Xavier, aqui]

Marulhada

 De tão líquida a mulher,
de tanto mar nos olhos,
a boca seca seca a alma.
O coração em ondas
escorre sobre a face.

[Francesca Cricelli]

A Divisão do Frango (Ossos, plasticina, 2017)

 Alguns ficaram com as minhas partes
piores. Isto é como a divisão do frango
em família numerosa. Faltam coxas para todos.
Isto é como a aprendizagem da generosidade:
o peito ou o pescoço ou as asas. Lá em casa,
fazíamos de conta que preferíamos outra coisa
e dávamos as partes melhores aos irmãos.
Não sei o que isso dirá de mim e dos meus irmãos.
Sei que eu e os meus irmãos tivemos sempre
uns dos outros as partes melhores.
Parece-me justo e valioso. Parece-me informação
digna de CV ou de Wikipédia. Isto devia dar empregos.
Isto devia ser o primeiro dado de uma biografia:
“dava a parte melhor do frango aos seus irmãos”.

E depois apaixonamo-nos. Complica-se a divsião do frango
quando há coxas para todos: para dois.
Difícil haver tanta coxa. Difícil não ser preciso dividir.
Difícil ver cada vez menos os irmãos, que provariam à mesa
sermos nós ainda a criança generosa. E que se houvesse
menos frango ou mais gente, ofereceríamos a parte melhor.

Alguns ficaram com minhas partes piores.
Os que não amei, não gostavam de me ver comer frango.
Comiam ossos e deram cabo de mim. Ainda me telefonam.
Os que amei iam comigo à churrasqueira, pediam molho picante
à parte (sempre tive medo de perder o ar) e batatas fritas na hora.
Um dia, nunca mais me quiseram ver.

Apenas pelos meus irmãos soube dividir-me.
Apenas eles ficaram para lá da refeição.

Não quero com isto justificar-me. Entendo.
Parti bem o frango mas parti sempre mal.

Só que às vezes lamento ninguém ter esperado
que eu crescesse. É natural.
Em tempo de aviários, ninguém espera isso de um frango.

[Filipa Leal]

Mulher de Perfil com Máscara na Mão Direita

 Mulher a inventar o corpo, a boca
cheia de vestígios de pântano, de heras,
de lodo, de incomunicabilidade.
Mulher segurando a máscara,
preparando-se para o esconderijo,
para a fácil loucura de já não ser real.
Mulher de perfil, tão pendurada, tão sem olhos
frontais, provocando-se a própria obra que a inclui,
desmotivando-se de tudo o que não for matéria,
soltando-se de todos os que a vêem bem.
Mulher enchendo-se de bronze,
tapando-se com a escultura que ela faráde si mesma.

[Filipa Leal]

Vem à Quinta-Feira

 Vem à quinta-feira.

É quase fim-de-semana e podemos, talvez, beber uma cerveja
ao cair da tarde, enquanto planeamos a viagem a Paris. E se Paris
for muito caro - sei que isto não está fácil - podemos ir a
         Guimarães
assim a um concerto, que ouvir é a maneira mais pura de calar.

Vem à quinta-feira.

A seguir, temos ainda a sexta e talvez me esperes à porta do
          emprego,
e talvez fiques para sábado e domingo, e talvez o mundo pare
de acabar tão depressa.

Vem à quinta-feira.
Mas não venhas nesta, vem na próxima.
Nesta, tenho um compromisso que não posso adiar, é um
          compromisso
profissional - sabes que isto não está fácil - e talvez nos dê
       hipótese de irmos
a Paris ou a Guimarães. Vem na próxima, que eu preciso de
          tempo
para arranjar o cabelo, para arranjar o coração,
para elaborar a lista do que me falta fazer contigo.

Vem à quinta-feira e não te demores.
Enquanto te escrevo, já fui elaborando a lista
(sabes como gosto de pensar em tudo
ao mesmo tempo)
e afinal o que me falta fazer contigo
não é caro:
- viajar de autocaravana,
- dançar na Estrada Nacional,
- ver-te chorar.
Choras tão pouco. Ainda bem que estás contente.

Vem à quinta-feira.

Se não puder ir a Paris ou a Guimarães, não te preocupes.
Vem na mesma, que eu vou apanhando as canas-da-índia, as
         fiteiras,
eu vou recolhendo a plha e reunindo cordas e lona.
Já estive a aprender no Youtube como se faz uma cabana.
Vem na mesma, que eu vou procurando um lugar seguro.
Vem na mesma porque a cabana, como a casa, só funciona
          com amor
- ou, pelo menos, é o que diz o Youtube.

Temos ainda tanto para fazer.
Por isso, se algum dia voltares, meu amor, volta numa quinta.

[Filipa Leal]

A Recusa do Amor

Não temos uma arma apontada à cabeça,
dizias-me. Mas era impossível que não visses,
impossível. Eu ao teu lado com aquela dor
no pescoço, imóvel, cuidadosa, o cano frio
na minha testa, a vida a estoirar-me
a qualquer momento. Era impossível que não visses
o revólver que levava sempre comigo. Por isso dormia
virada para o outro lado, não era por me dar mais jeito
aquele lado, era por me dar mais jeito
não morrer quando nos víamos,
era para dormir contigo só mais esta vez,
sempre só mais esta vez,
sempre com o meu amor a virar-se de costas,
sempre com o teu amor apontado à cabeça.

[Filipa Leal]

One art

The art of losing isn’t hard to master; so many things seem filled with the intent to be lost that their loss is no disaster. Lose some...