domingo, 16 de agosto de 2020

Abuelita

 I. SKIN & CORN
 
Her brown skin glistens as the sun
pours through the kitchen window
like gold leche. After grinding
the nixtamal, a word so beautifully ethnic
it must not only be italicized but underlined
to let you, the reader, know you’ve encountered
something beautifully ethnic, she kneads
with the hands of centuries-old ancestor
spirits who magically yet realistically posses her
until the masa is smooth as a lowrider’s
chrome bumper. And I know she must do this
with care because it says so on a website
that explains how to make homemade corn tortillas.
So much labor for this peasant bread,
this edible art birthed from Abuelitas’s
brown skin, which is still glistening
in the sun.
       

II. APOLOGY
 
Before she died I called my abuelita
grandma. I cannot remember
if she made corn tortillas from scratch
but, O, how she’d flip the factory fresh
El Milagros (Quality Since 1950)
on the burner, bathe them in butter
& salt for her grandchildren.
How she’d knead the buttons
on the telephone, order me food
from Pizza Hut. I assure you,
gentle reader, this was done
with the spirit of Mesoamérica
ablaze in her fingertips.

 

[Paul Martínez Pompa]
[11.09.2018]

Segunda história rápida sobre a felicidade – descendo a colina ao escurecer – meu amor ficou longe, com seu ar de não ter dúvida, e dizia: meus pais… – não posso mais duvidar dos meus passinhos, neste sítio – agora você fala até mais baixo, delicada que eu reparo mais que os outros depois de um tempo fora – é como voltar e achar as crianças crescidas, e sentar na varanda para trocar pensamentos e memórias de um tempo que passou – mas quando eu fui (aquele dia no aeroporto) ainda havia ares de mistério – agora, é agora, descendo esta colina, sem nenhum, que eu conto então do amor distante, e não imito a minha nostalgia, mas a delicadeza, a sua, assim feliz.

[Ana Cristina Cesar]
[06.07.2018]

 “Oh se tu capissi:
chi soffre
chi soffre non è profondo.”
Sobborghi di Torino. Estate. Ormai
c’è poca acqua nel fiume, l’edicola è chiusa.
“Cambia, non aspettare più.”
Vicino al muro c’è solo qualche macchina.
Non passa nessuno. Restiamo seduti
sopra il parapetto "Forse puoi ancora
diventare solo, puoi
ancora sentire senza pagare, puoi entrare
in una profondità che non
commemora: non aspettare nessuno
non aspettarmi, se soffro, non aspettarmi.”
E fissiamo l’acqua scura, questo poco vento
che la muove
e le dà piccole venature, come un legno.
Mi tocca il viso.
"Quando uscirai, quando non avrai
alternative? Non aggrapparti, accetta
accetta
di perdere qualcosa.”

[Milo De Angelis]
[16.06.2018]

Não Leitura

Para a obra de Proust
a livraria não fornece controle remoto,
não dá para mudar
para uma partida de futebol
ou um teleconcurso em que o prêmio é um volvo.
Vivemos mais,
mas com menos exatidão
e com frases mais curtas.

Viajamos mais, mais rápido, mais longe,
mas em vez de memórias trazemos slides.
Aqui eu com um cara.
Ali acho que o meu ex.
Aqui todo mundo pelado,
então deve ser uma praia.

Sete volumes - misericórdia.
Não dava para resumir, encurtar
ou, melhor ainda, colocar em imagens.
Tinha um seriado chamado “Lalka”,
mas minha cunhada diz que era de outro com P.

E afinal de contas esse quem era.
Parece que escrevia na cama por anos a fio.
Folha por folha,
em velocidade reduzida.
Já nós em quinta marcha
e - bate na madeira - saudáveis.
 

[Wisława Szymborska, trad. Regina Przbycien]
[02.06.2018]

 per caso mentre tu dormi
per un involontario movimento delle dita
ti faccio il solletico e tu ridi
ridi senza svegliarti
così soddisfatta del tuo corpo ridi
approvi la vita anche nel sonno
come quel giorno che mi hai detto:
lasciami dormire, devo finire un sogno.

[Antonio Porta]
[31.05.2018]

Primavera

Come se oggi non fosse
anche l’autunno o la brina
fresca di collana cascata dagli inverni,
come se non entrasse oggi
anche in noi di noi ogni momento
di quella nostra ampiezza, fine
o inizio, gli incontri dell’estate,
nome bruciante strada
che porti fino alla collina se
tu sei oggi il mite sfogliarsi
d’ogni cosa, il puppare miele
di cristo il suo riposo nel lino:non declinare,
non andartene
se puoi
dal lento nascere
di questo equinozio.

[Federica D'Amato]
[31.05.2018]

Ah smetti sedia di esser così sedia!
E voi, libri, non siate così libri!
Come le metti stanno, le giacche abbandonate.
Troppa materia, troppa identità.
Tutti padroni della propria forma.
Sono. Sono quel che sono. Solitari.
E io li vedo a uno a uno separati
e ferma anch'io faccio da piazzetta
a questi oggetti fermi, soli, raggelati.
Ci vuole molta ariosa tenerezza,
una fretta pietosa che muova e che confonda
queste forme padrone sempre uguali, perché
non è vero che si torna, non si ritorna,
al ventre, si parte solamente,
si diventa singolari.

[Patrizia Cavalli]
[27.05.2018]

Pode ser sem título

 Aconteceu de eu estar sentada sob uma árvore
na beira do rio,
numa manhã ensolarada.
É um acontecimento insignificante
e não entrará para a história.
Não é caso de batalhas e pactos,
cujas causas se pesquisam,
nem de tiranicídios dignos de memória.

E entretanto estou à beira do rio, é um fato.
E já que estou aqui
devo ter vindo de algum lugar,
e antes disso
devo ter aparecido em muitos outros,
exatamente como os conquistadores de terras
antes de subirem a bordo.

Mesmo o instante fugaz tem um passado fecundo,
sua sexta-feira antes do sábado,
seu maio antes de junho.
Tem seu horizonte não menos real
que no binóculo dos comandantes.

Esta árvore é um álamo enraizado há anos.
O rio é o Raba e não é de hoje que corre.
O caminho pelo mato
não é de anteontem que foi pisado.
O vento para dissipar as nuvens,
precisou antes trazê-las aqui.

E embora ao redor nada de grandioso aconteça,
o mundo não fica mais pobre em detalhes por isso,
menos justificado ou definido
do que quando o conquistaram as migrações de povos.

O silêncio não acompanha só as conspirações secretas.
Nem o cortejo de causas, só as coroações.
Podem ser redondos não só os aniversários de insurreições,
mas também os seixos que rolam na margem.

É denso e intrincado o bordado das circunstâncias.
O ponto da formiga na grama.
A grama costurada à terra.
O desenho da onda que um pausinho transpassa.

Aconteceu de eu estar e observar.
Acima de mim uma borboleta branca tremula no ar
as asas que só pertencem a ela
e passa sobre minhas mãos uma sombra,
não outra, não de outra qualquer, mas dela somente.

Diante de tal vista sempre me abandona a certeza
de que o importante
é mais importante do que o desimportante.

[Wisława Szymborska, trad. Regina Przybycien]
[15.05.2018]

Só o monstro é original na morte

 Só o monstro é original na morte.
Heitor arrastado por Aquiles diante dos muros de Troia
não é a morte.
A morte de Ofélia não é a morte.
O suicídio ritual de Mishima não é a morte.
Torquato Neto.
Francesca Woodman.
O tiro de Hemingway na própria boca
talvez seja a morte.

Só o monstro é original na morte.
Todo tumor é parecido.
Todo coração enfarta igual.
O atropelamento é do asfalto.
A bala perdida é do metal.

Só o monstro é original na morte.
Eu costuro panos de prato para a morte.
Faço café toda manhã.
Como bananadas.
Tento parar de fumar.
A morte sabe o quanto engordei
e me vê nu quando trepo.
Sente o cheiro de suor quando volto do trabalho.
Guarda conta dos filmes que vejo
dos corpos que cobiço.
A morte me viu lamentar outras mortes.
Está comigo nas festas e eu bebo
com ela.

Só o monstro é original na morte.
Nada de novo guerra bordéis bocas de fumo
facada pulo de ponte acidente de trânsito
o mal súbito que ninguém entende.
Conheço o perfume das toalhas que a morte usa
para se secar depois do banho.

Só o monstro é original na morte.
Minhas cuecas.
As vezes em que dormi nu.
Os dias em que minha mãe chorou.
Os dias em que saí com as roupas amarrotadas.
Minhas meias.
Minhas malas.
Meus passaportes.
Meus exames de sangue.
Meus parentes morrendo
pouco a pouco
meus parentes morrendo.
A morte conhece meus amigos.
Sabe as fronteiras que cruzei.
Sabe terminar as frases que começo.
Sabe porque não quebro os versos
onde deveria.

Só o monstro é original na morte.
Minha amiga.
A morte está nas ruas
mas volta
bêbada
para a minha cama.
As lanchonetes botam salgados no forno
às cinco da manhã.

Só o monstro é original na morte.
E se me permitirem quero ser homem
ou garoto, se preferirem.
A morte bebe toda a água da geladeira
e não enche as garrafas depois.

Faz tanto calor no Rio de Janeiro.

[Victor Heringer]

DIRGE WITHOUT MUSIC

 I am not resigned to the shutting away of loving hearts in the hard ground.
So it is, and so it will be, for so it has been, time out of mind:
Into the darkness they go, the wise and the lovely. Crowned
With lilies and with laurel they go; but I am not resigned.

Lovers and thinkers, into the earth with you.
Be one with the dull, the indiscriminate dust.
A fragment of what you felt, of what you knew,
A formula, a phrase remains, — but the best is lost.

The answers quick and keen, the honest look, the laughter, the love,
They are gone. They are gone to feed the roses. Elegant and curled
Is the blossom. Fragrant is the blossom. I know. But I do not approve.
More precious was the light in your eyes than all the roses in the world.

Down, down, down into the darkness of the grave
Gently they go, the beautiful, the tender, the kind;
Quietly they go, the intelligent, the witty, the brave.
I know. But I do not approve. And I am not resigned. 

[Edna St. Vincent Millay]
[tradução]
[28.04.2018]

Dicevano, a Padova, “anch’io”
gli amici “l’ho conosciuto”.
E c’era il romorio d’un’acqua sporca
prossima, e d’una sporca fabbrica:
stupende nel silenzio.
Perché era notte. “Anch’io
l’ho conosciuto”.
Vitalmente ho pensato
a te che ora
non sei né soggetto né oggetto
né lingua usuale né gergo
né quiete né movimento
neppure il né che negava
e che per quanto s’affondino
gli occhi miei dentro la sua cruna
mai ti nega abbastanzaE così sia: ma io
credo con altrettanta
forza in tutto il mio nulla,
perciò non ti ho perduto
o, più ti perdo e più ti perdi,
più mi sei simile, più m’avvicini.

[Andrea Zanzotto]
[20.04.2018]

Decapitação


Decote vem de decollo,
decollo significa cortar o pescoço.
A rainha da Escócia Maria Stuart
chegou ao patíbulo numa veste apropriada,
a veste era decotada
e vermelha como uma hemorragia.

No mesmo momento
num quarto apartado
Elizabeth Tudor, rainha da Inglaterra,
estava à janela num vestido branco.
O vestido vitoriosamente abotoado até o queixo
terminando num rufo engomado.

Pensavam em coro:
“Deus, tende piedade de mim”
“A razão está comigo”
“Viver é atrapalhar”
“Em certas situações a coruja é filha do padeiro”
“Isso nunca vai acabar”
“Isso já acabou”
“O que faço aqui, não tem nada aqui”.

A diferença no traje - sim, dessa tenhamos certeza.
O detalhe
é inabalável.

[Wisława Szymborska]
[19.04.2018]

 Pegli occhi fere un spirito sottile,
che fa ‘n la mente spirito destare,
dal qual si move spirito d’amare,
ch’ogn’altro spiritello fa gentile.

Sentir non pò di lu’ spirito vile,
di cotanta vertú spirito appare:
quest’è lo spiritel che fa tremare,
lo spiritel che fa la donna umíle.

E poi da questo spirito si move
un altro dolce spirito soave,
che segue un spiritello di mercede:

lo quale spiritel spiriti piove,
ché di ciascuno spirit’ha la chiave,
per forza d’uno spirito che ‘l vede.

[Guido Cavalcanti]
[13.04.2018]

 Estou perto demais para ele sonhar comigo
Não pairo sobre ele, não fujo dele
sob as raízes das árvores. Estou perto demais.
Não é com a minha voz que o peixe canta na rede.
Não é do meu dedo que rola o anel.
Estou perto demais. A casa enorme queima
sem que eu grite por socorro. Perto demais
para que no meu cabelo soe um sino.
Perto demais para que possa entrar como hóspede
diante de quem as paredes se abrem.
Nunca de novo morrerei tão leve,
tão além do corpo, tão inconsciente
como outrora no seu sonho. Estou perto demais,
perto demais. Ouço um sibilo
e vejo a escama brilhante dessa palavra
imobilizada no abraço. Ele dorme,
mais acessível neste instante à caixa do circo
itinerante com um leão, que viu uma única vez,
do que a mim deitada a seu lado.
Para ela cresce nele agora um vale
de folhas rubras, fechado por um monte nevado
no ar azul. Estou perto demais
para lhe cair do céu. Meu grito
só poderia acordá-lo. Pobre de mim,
limitada à minha própria forma,
eu que fui bétula, que fui lagartixa,
e largava os anos e panos
cambiando as cores das peles. E tinha
o dom de desaparecer ante olhos espantados,
riqueza das riquezas. Estou perto demais,
perto demais para ele sonhar comigo.
Retiro de sob sua cabeça adormecida
meu braço dormente, um enxame de alfinetes.
No topo de cada um deles, para serem contados,
assentaram-se anjos caídos.

[Wisława Szymborska]

[06.04.2018]

Spiegarsi

 Mentre io parlo, tu
guardi la giacca
buttata sul divano,
ma non lo trovi lì
quel che vuoi dire.
C’è un altro posto.
Se ti voltei a rispondere
arriva anche a me, la luce.

Mentre le cose
ti vengono nella voce
e ti scaldano, più le ascolto
più sento come sei via.
E anch’io, anch’io sono là.
Siamo così. Siamo quello che manca
in tutte le spiegazioni.

Fuori le case ferme
e in mezzo i platani che tremano.
Più capisco il discorso più le bocche,
frase per frase, le dita
e le orecchie, sento come rimangono
a posto, e non si toccano.

Vedi? Parlare ci separa. Eppure
nemmeno nella stretta di mano
più calda, occhi negli occhi,
nemmeno abbracciati,
pensi nel bacio più profondo
saremo mai vicini come siamo
nelle parole.

L’aria vibra, noi ci capiamo:
è questo l’imbarazzo che ci tiene,
ci stringe insieme.
A volte due che si fermano appena
per un saluto, un attimo,
quasi li schiaccia. E se non parlano rimane,
e cresce, e sembra l’unica cosa chiara.

Riguarda noi,
è nostro, questo imbarazzo.
Niente ne sanno le poltrone,
le piante, o questi cani
che se ne stanno lì incantati
uno di fronte all’altro senza faccia,
senza guardare.

Noi che guardiamo
coi gomiti e con la schiena,
e nelle vene più buie
ci siamo in faccia,
è per noi l’imbarazzo
per noi che a niente, a nessuno
saremo mai vicini fino in fondo.

È per noi che una volta, perché il mondo
potesse incontrare il mondo,
e ci fosse buon giorno e buona sera,
siamo venuti a stare
qui, sulle spine.

[Umberto Fiori]
[19.03.2018]

One art

The art of losing isn’t hard to master; so many things seem filled with the intent to be lost that their loss is no disaster. Lose some...