domingo, 16 de agosto de 2020

 Estou perto demais para ele sonhar comigo
Não pairo sobre ele, não fujo dele
sob as raízes das árvores. Estou perto demais.
Não é com a minha voz que o peixe canta na rede.
Não é do meu dedo que rola o anel.
Estou perto demais. A casa enorme queima
sem que eu grite por socorro. Perto demais
para que no meu cabelo soe um sino.
Perto demais para que possa entrar como hóspede
diante de quem as paredes se abrem.
Nunca de novo morrerei tão leve,
tão além do corpo, tão inconsciente
como outrora no seu sonho. Estou perto demais,
perto demais. Ouço um sibilo
e vejo a escama brilhante dessa palavra
imobilizada no abraço. Ele dorme,
mais acessível neste instante à caixa do circo
itinerante com um leão, que viu uma única vez,
do que a mim deitada a seu lado.
Para ela cresce nele agora um vale
de folhas rubras, fechado por um monte nevado
no ar azul. Estou perto demais
para lhe cair do céu. Meu grito
só poderia acordá-lo. Pobre de mim,
limitada à minha própria forma,
eu que fui bétula, que fui lagartixa,
e largava os anos e panos
cambiando as cores das peles. E tinha
o dom de desaparecer ante olhos espantados,
riqueza das riquezas. Estou perto demais,
perto demais para ele sonhar comigo.
Retiro de sob sua cabeça adormecida
meu braço dormente, um enxame de alfinetes.
No topo de cada um deles, para serem contados,
assentaram-se anjos caídos.

[Wisława Szymborska]

[06.04.2018]

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