Para a obra de Proust
a livraria não fornece controle remoto,
não dá para mudar
para uma partida de futebol
ou um teleconcurso em que o prêmio é um volvo.
Vivemos mais,
mas com menos exatidão
e com frases mais curtas.
Viajamos mais, mais rápido, mais longe,
mas em vez de memórias trazemos slides.
Aqui eu com um cara.
Ali acho que o meu ex.
Aqui todo mundo pelado,
então deve ser uma praia.
Sete volumes - misericórdia.
Não dava para resumir, encurtar
ou, melhor ainda, colocar em imagens.
Tinha um seriado chamado “Lalka”,
mas minha cunhada diz que era de outro com P.
E afinal de contas esse quem era.
Parece que escrevia na cama por anos a fio.
Folha por folha,
em velocidade reduzida.
Já nós em quinta marcha
e - bate na madeira - saudáveis.
[Wisława Szymborska, trad. Regina Przbycien]
[02.06.2018]
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