sábado, 16 de janeiro de 2021

18 de abril de 2013

 Nous parlons en silence d'une jeunesse vieille.

— Jacques Brel

Faço hoje quarenta e um anos e estou sozinho na casa onde descobri o medo. A música ajuda, mas não salve — até porque nada salva. Nunca pensei vir a reafirmar, com esta idade, uma certeza tão antiga. Pois o medo foi, de facto, a minha primeira grande descoberta. Confundia-se com o corredor vazio, com a estrada de alcatrão que fazia estremecer a janela do meu quarto, entranhava as páginas lidas e relidas d'O Conde de Monte Cristo ou de Nossa Senhora de Paris.

*

Para me distrair, tento perceber o caminho, fazendo uma espécie de balanço. Talvez nem me devesse queixar. Com ou sem talento, fui ou sou tudo o que vagamente desejei: poeta, crítico, editor, barman, livreiro e tradutor. De um modo quase sempre bastante heterodoxo, é certo. E tive amigos, conheci de perto o amor. Também houve falsos amigos, traições, os piores enganos. Não me ficou, de tudo isso, rancor nem arrependimento; senti antes que um filtro, implacável, me veio trazer o seu auxílio.

*

Socorre-me hoje a companhia de Frank e de Jojo, testemunhas involuntárias dos meus anos selvagens. Mas o dia poderia resumir-se ao gelado de amêndoa que levei à minha mãe, ainda no hospital, e à tua imagem, sentada no banco mais triste da cidade e reflectida na janela do comboio das 21h48, que partiu irremediavelmente. Foi assim, póstumo e sem ti, que reencontrei o medo.


[Manuel de Freitas]

Um comentário:

  1. "O medo enferruja as âncoras" [do cortázar, na cartinha da valek, sobre soul, e sobre morte e pandemia — essa guerra]

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The art of losing isn’t hard to master; so many things seem filled with the intent to be lost that their loss is no disaster. Lose some...